Imagem e Palavra, de Jean-Luc Godard

Da desconstrução do termo “refeitos” é possível retirar o termo “rimas” (rim(ak)es). Estão intimamente ligados, segundo Jean-Luc Godard: enquanto um indica a volta a algo, a reconstrução deste, o outro alude à ligação, às coisas que combinam – que, em Imagem e Palavra, outro exercício de cinema-colagem do diretor francês, estranhamente combinam.

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Se os “refeitos” oferecem a associação pelo óbvio, sem nunca esconder seu nascedouro, as “rimas” fazem pela proximidade do som, da palavra dita ou escrita. Para Godard, são primos, ou mesmo irmãos: enquanto Hollywood prefere o remake, o genial cineasta prefere reflexos possíveis entre uma imagem e outra, uma palavra e outra.

Tais “rimas” levam ao avião de guerra e, por consequência, pela montagem, ao famoso Tubarão, de Steven Spielberg. Horror no céu, na guerra, horror no mar, em terreno hollywoodiano. A passagem é rápida, para Godard incontornável. Os filmes não apenas colhem o horror da vida; eles também o projetam, parece dizer o autor.

O cinema-colagem é uma metralhadora de ideias, dialética interminável, com os clássicos do cinema e suas imagens de beleza estabelecida, o documentário histórico e suas imagens chocantes, a pintura e suas imagens de sonho, o vídeo digital e suas imagens que, a alguns, soam banais. Godard põe tudo em um liquidificador, cria mensagens por associação.

Em algum ponto, História(s) do Cinema encontra a violência real dos vídeos – talvez mais roteirizados e produzidos do que pareçam – do Estado Islâmico. Tempo de Guerra, aquele pequeno grande filme dos anos 1960, retorna e choca pela aspereza, pelo deboche do homem da guerra em meio a esta – sem heroísmo, lotado de boçalidade.

Em algum ponto, Salò e seus meninos cães refletem o horror da guerra. Pasolini retrata o fascismo como poucos e agora Godard toma suas imagens – tão chocantes – para mostrar a dependência entre figuras aparentemente distantes. Godard aproxima, dá lugar ao possível, a imagens irmãs, em rimas, para mostrar o quanto o cérebro enxerga.

Há o faroeste, claro, como a beleza de Johnny Guitar. Suas cores explodem. O gênero que falsifica e ao qual os cinéfilos dos anos 50 – Godard entre eles – entoaram loas. Não foi o mesmo Godard que disse que “o cinema é Nicholas Ray”? Mas aquele, sabe-se, era outro diretor, ou outro crítico. Com Imagem e Palavra, é possível argumentar que, desse faroeste, restou a beleza, sem que esteja imune à associação ao horror. Ninguém está.

De A Morte em um Beijo, de Aldrich, há o trecho em que o casal tenta escapar, pela praia, da casa perto de explodir após aberta a Caixa de Pandora, a luz que projeta início e fim. Justamente esse trecho: o cinema popular americano, de gênero policial, reflete as bombas, as guerras, o início e o fim e a sede pelo poder. Estranhamente atual.

Em outro momento, uma personagem de Monstros, de Tod Browning, flerta com um filme pornográfico. A associação entre extremos é possível. A montagem oferece a nova forma pela alternância, plano e contraplano. A estranha vergonha da personagem, seu desejo e a maneira como evita o que vê encontram no pornô a resposta indesejada.

A locomotiva questiona o progresso, as imagens de A Mocidade de Lincoln o herói idealizado (o futuro presidente debruçado em livros), o abate do coelho em A Regra do Jogo a morte como esporte da burguesia. E há também o Oriente Médio, na última parte, o mundo árabe das imagens de Hollywood e das reais e cotidianas.

“Quando um século lentamente se dissolve em um século seguinte, algumas pessoas transformam meios de sobrevivência em novos meios. É o que finalmente chamamos de arte”, diz Godard, em narração. A arte é inseparável da História, das ações humanas, em decomposição e composição constantes, reconstrução sem fim: um livro de imagens.

(Le livre d’image, Jean-Luc Godard, 2018)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Quem é Jean-Luc Godard?

A morte de Pasolini, antes e depois

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