Amor Livre, de Jacques Doniol-Valcroze

A criança circula pela grande casa com seu ioiô, de um lado para outro. Observa, pouco aparece, e sem surpresas sabe mais que os adultos sobre o que se desenrola. Os mais velhos, supostamente maduros, apelam a joguinhos, fogem, deixam-se infantilizar na falta de algo melhor a fazer, ou na falta de relacionamentos sólidos.

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A aventura nada se assemelha à de Antonioni, do mesmo ano. Jacques Doniol-Valcroze não vai fundo na frivolidade nem no drama. O espírito da nouvelle vague – ainda que não seja um típico filme do movimento – pode ser visto: o realismo despojado, de um espaço livremente imperfeito, é seguido por toques de poesia e literatura.

Embalado pela canção de Serge Gainsbourg, Amor Livre é sobre três casais que pouco a pouco se misturam, entre patrões, criados e visitantes. Não chega à bagunça de Renoir e seu A Regra do Jogo, menos ainda a algo classudo, a pessoas tristes e faces perdidas, em um filme carregado de dor – como Zurlini ou Visconti, para ficar em dois exemplos.

Ao se descartar o que não é pouco sobra à definição desse exercício de encontros e desencontros, no qual os criados imprimem mais graça que os patrões e visitantes, no qual um fotógrafo finge ser outra pessoa para ficar ao lado da namorada – e da futura amante, além de roubar um beijo como pagamento pelo silêncio da criada – na grande casa.

Reúnem-se ali para dividir a herança da falecida avó. A bela Miléna (Françoise Brion) precisa receber os primos que há muito tempo não vê, desde a infância, Séraphine “Fifine” Brett-Juval (Alexandra Stewart) e Jean-Paul (Paul Guers). O fotógrafo Robert Godard (Jacques Riberolles) assume o papel do primo para se tornar o desestabilizador, a quem todos são atraídos, nem burguês nem criado, que come pelas bordas.

Doniol-Valcroze aposta nesse ser transitório, no olhar externo, o do aventureiro que, sem surpresas, toma o coração da moça rica à frente da casa. Pela herança, o local deverá ser fatiado entre os três netos. Nesse sentido, o filme é sobre os últimos dias de aventura nesse espaço que remete ao passado, à luz da geração jovem.

Tem, oculta, certa rispidez, alguma crueza: a primeira imagem do filme, nos créditos, é a de um touro na arena, animal que serve ao esporte e provavelmente pagará com a vida. Passagem rápida, a explicar o que vem depois: as personagens da grande casa – ricos ou pobres – estão entregues ao jogo que não podem controlar.

Os criados – mais que os patrões – divertem-se enquanto saltam de quarto em quarto, enquanto a recém-chegada Prudence (Bernadette Lafont) nega o mordomo, incansável em suas investidas, em jeito propositalmente falso, não menos fácil. Para ele, Michel Galabru constrói um mulherengo chato, invasivo, sempre a dar pitacos.

Prudence é mocinha no corpo de mulher, criada menos burra que parece, feliz, a mais livre em cena: descendente direta de Paulette Dubost, no já citado A Regra do Jogo, também da Harriet Andersson de Sorrisos de uma Noite de Amor, de Bergman. Alguém que existe para confundir, beleza saltitante que se finge infantil, mas que tudo entende.

Com o mordomo, deixa o filme mais leve. É quem descobre a verdadeira identidade do fotógrafo penetra. No quarto dele, observa-o como dominadora, em porte da senha para sacá-lo de seu novo conforto. Tanta beleza, contudo, não será capaz de atraí-lo. Prudence, ou Lafont, é livre demais para o cínico e enjaulado em questão.

(L’eau à la bouche, Jacques Doniol-Valcroze, 1960)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
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