À Beira da Loucura, de John Carpenter

Investigador de uma empresa de seguros, John Trent (Sam Neill) afirma o tempo todo que vive a realidade. Quando seu universo torna-se algo estranho, é mais fácil crer em uma conspiração com falsos monstros, figurantes com machado na mão e efeitos especiais. A certa altura, ele passa a acreditar que está em um filme.

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Termina, por sinal, em uma sala de cinema vazia, com pipoca, sorrindo, enquanto assiste ao filme de sua vida. Chega assim ao fim do mundo, aos confins de sua própria loucura. Encontra seu espelho no cinema, homem que negava o poder da ficção na vida das pessoas, quando todos já estavam enfeitiçados por um livro.

Em À Beira da Loucura, de John Carpenter, Trent conta como chegou a esse ponto: a seguradora em que trabalha o contratou para descobrir o paradeiro de um famoso escritor, Sutter Cane, e de seu último livro, ainda não terminado. O protagonista conta a história do interior de um hospício, consumido pela loucura ou pela (sua) verdade.

Sob a influência do livro de Cane, leitores começam a enlouquecer e desenvolvem atitudes violentas. Para Trent, o que se impõe não merece mais que seu olhar cético: tudo não passa de algo passageiro, a ser explicado pelo apelo da indústria cultural, não necessariamente um poder que emana das obras de Cane.

O que se desenha a partir dessa atitude – o investigador frio e cheio de dúvidas contra eventos estranhos – leva à chave do grande filme de Carpenter: o poder da ficção na vida das pessoas e a inversão que torna o lúcido o louco da vez. O poder dos livros é sempre subestimado por gente como Trent, a viver e a investigar a “vida real”.

O filme faz o espectador – e, mais tarde, Trent – questionar o que é ficção e realidade. Na companhia de uma editora (Julie Carmen), o protagonista segue a uma cidade fora do mapa, descoberta a partir de recortes das capas dos livros de Cane. Pela estrada, ela começa a ver imagens, ter delírios; ele segue duvidando.

Ao chegarem à cidade, em abrupta passagem da noite ao dia, o casal encontra um local tranquilo, sem pessoas pela rua, com hotel, bar, bela igreja. É a típica cidade americana que, aos poucos, libera seus monstros. Por ali, Cane esconde-se no interior da igreja para terminar seu livro e, com ele, dar vida a novas criaturas.

Carpenter, do roteiro de Michael De Luca, abre perguntas sobre a posição das personagens, se estariam vivendo a mesma história do livro (em seu interior) ou apenas no local que serviu de inspiração para Cane escrevê-lo – além de palco de seu último trabalho, depois entregue ao próprio Trent.

O protagonista torna-se o elo com o mundo real, ou com o que sobrou dele. Ousado, Carpenter não tem medo de soar ridículo quando capta closes de Jürgen Prochnow, no papel de Cane, que encara o espectador em evidente tom falso – prova de que talvez não passe de fruto da imaginação de um louco, no hospício.

Servido pelo grotesco, o filme de Carpenter é uma interessante parábola sobre como a ficção tornou-se inseparável da vida das pessoas – para o bem ou para o mal. Essa mesma ficção levada a sério o suficiente para ganhar contornos de crença, cultores, sendo o livro – depois adaptado ao cinema – candidato à nova Bíblia.

Os sinais religiosos não escapam: é na igreja que Cane esconde seus monstros, onde termina sua obra, ambiente em que Trent encontra o túnel escuro que o leva de volta à realidade, espaço em que o corpo do autor – em sequência difícil de descrever – revela-se livro aberto. Contra Trent está a própria ficção.

(In the Mouth of Madness, John Carpenter, 1994)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Macbeth, de Orson Welles

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