Carrière: “Buñuel é claramente um homem maior que Picasso”

Você sabe, Buñuel é claramente um homem maior que Picasso. Você tem que voltar até Goya para encontrar uma figura dessa importância. Ou seja, Picasso é um grande pintor, mas ele é apenas um pintor. Você pode escrever livros, fazer filmes, sem nunca pensar em Picasso. Mas o que quer que você faça, no mundo espanhol, seja você romancista, pintor, cineasta, é claro, homem do teatro, em um determinado momento, encontrará Buñuel. Ele tocou em tudo. Ele encontrou algumas das principais imagens do século no mundo espanhol. Nos Estados Unidos, na França, na Itália, ele é considerado um grande cineasta e, desde seu livro [Meu Último Suspiro], um grande homem. Mas com algo marginal nisso. Eles sempre dizem que ele é surrealista, ele não é realmente um clássico, ele não é realmente um mestre do pensamento. Na Espanha, ele não é um surrealista, de maneira alguma. Ele é espanhol, ponto final. O que consideramos bizarro, cruel, peculiar na Espanha é natural.

 

(…)

 

Como surgiu O Fantasma da Liberdade? Como você procedeu?

 

Quando nos reunimos depois de O Discreto Charme da Burguesia, que foi um grande sucesso em Cannes, nos perguntamos: “Agora, o que vamos fazer?” Não podíamos apenas fazer outro filme popular. Começamos a conversar sobre liberdade, e o título veio do final de O Discreto Charme, sobre o fantasma da liberdade. Havia um princípio na história. Perguntamo-nos por que, quando alguém conta uma história, conta isso e não aquilo? Com que arbitrariedade se decide contar qual história? E nós decidimos, realmente não sabemos. Porque é isso, o fantasma da liberdade decidindo o que um filme passa. Então, imaginamos um casal que está aguardando um telegrama muito importante que vai decidir o curso de suas vidas. Seus pensamentos estão apenas no telegrama. O portador do telegrama toca, eles pegam o telegrama e fecham a porta. Ficamos no portador e o seguimos, deixando o casal para trás. Naturalmente, isso é o contrário do que se espera.

Jean-Claude Carrière, roteirista e escritor, em entrevista publicada em diferentes veículos, como o International Herald Tribune (julho de 1983), Los Angeles Times (novembro de 1983) e em Cinéaste (março de 1983) (leia aqui em inglês; a tradução é deste site). Carrière foi colaborador de Luis Buñuel com frequência, até a morte do diretor, em 1983. Acima, Buñuel durante as filmagens de Via Láctea; abaixo, cena de O Fantasma da Liberdade.

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