Beleza Americana, de Sam Mendes

A câmera de vídeo, pequeno objeto carregado pelo vizinho, dá acesso a uma realidade à parte em Beleza Americana. Algo raro, que produz o inverso do esperado: não é pela visão que as pessoas em cena encontram a realidade, ou alguma beleza. São poucos os que ainda conseguem ver sensibilidade de um saco plástico levado pelo vento.

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A realidade perde a vez para a representação em tons granulados, aos trancos, na câmera carregada pelo rapaz, Ricky (Wes Bentley), que passa a namorar a filha de seu vizinho – alguém que, aos olhos de todos, um pouco como todos, guarda algo estranho.

A ideia de que é preciso olhar de perto para enxergar dá lugar a outra: é preciso lançar uma nova tela, buscar outro ângulo, às vezes até espionar para perceber quem se esconde e quem está disposto a ser verdadeiro. Parte das personagens de Sam Mendes, do roteiro de Alan Ball, não tem problema em mostrar quem é; outra prefere fingir.

O protagonista anuncia sua morte nos primeiros instantes. É também o narrador que tudo sabe e, calmo, conta seu caminho rumo ao túmulo. Em seu ponto alto do dia, antes de descobrir que pode mudar tudo e rejuvenescer, Lester Burnham (Kevin Spacey) masturba-se no chuveiro. Esconde-se em uma vida sem graça.

Decide mudar ao perceber o quanto está perdendo: passa a comprar maconha do vizinho, o dono da câmera de vídeo e futuro namorado de sua filha, e a flertar com a amiga da menina. A lourinha de seus sonhos (Mena Suvari) lança-lhe pétalas vermelhas, ela própria a “beleza americana”. É uma moldura: o desejo que se insinua, que lhe toma noite adentro e, para o susto de sua mulher (Annette Bening), que faz com que se masturbe.

Lester tem um surto de juventude: deixa o emprego e volta a trabalhar em uma lanchonete fast food; passa a correr e levantar peso para manter o corpo em forma e atrair a atenção da mesma lourinha; ouve músicas de sua época e diz o que vem à mente, a externar suas vontades, sem medo das consequências – como se soubesse do fim.

O vizinho Ricky é filho de um militar durão (Chris Cooper), cheio de regras, que espiona a própria família e não aceita que suas armas ou velharias dos tempos da Segunda Guerra Mundial sejam reviradas. É, entre todos, o que mais precisa se esconder, cujo ódio à liberdade reflete seu interior, seus segredos guardados, seus desejos ocultos.

A arquitetura ajuda a estabelecer o drama: Beleza Americana é sobre vizinhos, pessoas que resolvem olhar ao lado, a alguns metros, à janela da frente – e talvez encontrar a chave para compreender o que envolve esse jogo de papéis estabelecidos. Talvez cruzar a linha que separa uma casa da outra, o que pode soar uma jornada.

Seja com a filha (Thora Birch) com problemas com o próprio corpo, seja com a mãe que tenta ser a melhor vendedora de imóveis, seja com qualquer um em cena, Mendes expõe um espaço de comunicação difícil ou anulada. Quando o filme começa, a filha não consegue mostrar simpatia pelos pais e não se esforça para esconder isso; na casa ao lado, o rapaz jogo com o oposto: finge relações possíveis, veste a máscara do filho exemplar.

Pelos olhos voltados ao vizinho, vê-se algo reprovável, um engano, o sexo que nunca ocorreu – desejo a ser combatido. Pela câmera de vídeo, vê-se o real, a exemplo do homem nu com seus pesos na mão, do sorriso da menina (distante) refletido no espelho, ou, em gravações antigas, o saco plástico “dançando” entre o vento – para cima e para baixo.

Essa América de seres aprisionados não demora a implodir. A noite chuvosa traz revelações: contra tudo o que poderia ser diferente, contra todos os prazeres momentâneos, resta ainda a antiga foto da família. Com ela, os bons dias do passado. Lester é morto enquanto contempla a memória, mulher e filha distantes do cinismo que agora se impõe.

(American Beauty, Sam Mendes, 1999)

Nota: ★★★★☆

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