Depois do Vendaval, de John Ford

Os homens socam-se, divertem-se com a brutalidade que encontra pausa apenas no bar, nas canecas de cerveja, para depois voltarem aos socos. Esse jeito velho, selvagem apesar da boa aparência do povo irlandês, é cortado pela comédia de John Ford em um de seus filmes mais pessoais e prazerosos: Depois do Vendaval.

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O protagonista, americano de raízes irlandesas, terá de se adaptar a esse mundo de pancadas e mulheres tomadas à força – quando necessário, para a alegria do vilarejo. O que poderia ser desagradável Ford converte em graça, particularidade de um terreno que conhece bem, sua velha Irlanda de campos verdes e água brilhante.

Ao encarar a paisagem, a casa em que nasceu, Sean Thornton (John Wayne) revela ao novo colega (Barry Fitzgerald) – a postos para atendê-lo, conselheiro torto porque bêbado – que veio daquele lugar, e que só ali poderá viver. Está destinado a fincar os pertences, seu corpo quadrado, ao alto do pequeno morro com a mesma casa.

Logo, uma companheira. Não demora a aparecer. De cabelos vermelhos como fogo, Mary Kate Danaher (Maureen O’Hara) surge quando o protagonista acaba de chegar, entre ovelhas, para encará-lo. Poucas mulheres explicam tanto com seu olhar, ao mesmo tempo em que não se entrega, fechada, como a bela O’Hara.C

Remete à mesma O’Hara difícil, afastada, de Como Era Verde Meu Vale, do mesmo Ford: mulher em um mundo de homens, a servir batatas aos mesmos com algum desgosto, como se não pudesse fazer parte da informalidade deles, à mesa, tampouco escapar à irascibilidade demonstrada, em dado momento, pelo futuro marido.

Ao ser carregada à força pelo amado para reencontrar seu irmão, para que receba de volta seu dote (em dinheiro), ela sentirá – com alguma demora – a força que esperava de Sean. Não basta o ato, ainda sobram os socos. Ela, mulher domada, vai embora preparar o jantar; ele, o marido, fica para brigar com o cunhado, o grandalhão Will (Victor McLaglen).

O final feliz é uma visão romantizada, de sonho, de Ford para sua própria terra: os homens que correm atrás de suas mulheres pelo mato após estapearem suas nádegas, o simpático dono do pub que oferece bebida por conta da casa quando há uma briga para agitar o local, o velho à beira da morte que se levanta e sai de casa para assistir ao embate.

Indolor, sem dúvida: mundo ao qual vai um certo John Wayne após sofrer um trauma, que se delicia enquanto assiste aos atos do povo distante aos olhos do americano, às tradições que parecem chatas – e são, de tão ultrapassadas -, mas que, ao foco do diretor, tornam-se amostras felizes de algo perdido, reino de beleza, de árvores e bosques.

Wayne não será o macho frustrado. Será o homem que ama. Por isso, precisa voltar à luta, provar à mulher que pode ser o bronco de sempre – como os outros, como seu irmão. Antes de chegar à Irlanda, Sean matou um homem no ringue de boxe. Por isso, decidiu aposentar os socos – algo complicado a alguém que vive em terra que valoriza o físico.

Da história de Maurice Walsh, com roteiro de Frank S. Nugent, Ford compõe um filme particular, de vidas privadas, de coincidências deliciosas, no qual a mulher quer ser domada, à qual não basta o amor. Ford até pode soar machista, passar do ponto em algum instante. Seu envolvimento com o material faz seus seres exóticos parecerem pessoas comuns.

(The Quiet Man, John Ford, 1952)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Como Era Verde Meu Vale, de John Ford

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