A Hora da Religião, de Marco Bellocchio

A religião atormenta. Primeiro o filho, depois – e aos poucos – o pai e protagonista. O filho pede que Deus vá embora, que o deixe em paz. À mãe, o garoto explica: se Deus está em todos os lugares, a todo o momento, ele não pode ser livre. O argumento é interessante.

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No caso do pai, o problema chega de outra forma. Ateu, ele não pode pedir que Deus vá embora. Tem de conviver com seus sinais, seus seguidores, com a Igreja. Em A Hora da Religião, de Marco Bellocchio, Ernesto (Sergio Castellitto) descobre que o Vaticano deu início ao processo de beatificação de sua mãe, morta por um de seus três irmãos. Primeiro ele não compreende o que ocorre ao redor, depois se vê perplexo com o desenrolar.

Entre seus irmãos e outros parentes há quem defenda essa beatificação por benefícios. Na verdade, à sua exceção, praticamente todos enxergam vantagens no processo religioso. Pintor, intelectual, lúcido, ele tenta se manter fiel à sua forma de pensar, ao que crê, mesmo que custe o desgosto e a distância dos outros.

A um dos homens da Igreja Católica, quando interrogado no Vaticano, Ernesto fala o que os mais religiosos não esperavam ouvir: a mãe não tinha paixão, era passiva, não mostrava “rebeldia”, em suas palavras, contra a doença do irmão Egídio (Donato Placido), e que suportava isso como uma expiação, “envenenando a todos nós”.

Para que se tenha a nova santa é necessária a prova de que a mãe morreu perdoando o assassino, ou seja, o próprio filho. É preciso que haja martírio. De Egídio não há palavra alguma: internado em uma clínica psiquiátrica, ele apenas chora ao encontrar Ernesto. Seria – em silêncio, em clausura – o mais sincero entre todos?

Sem a loucura de um ou o oportunismo dos outros, resta a Ernesto lutar com sua consciência, ainda que não lhe falte a certeza sobre suas convicções. Seu dilema é não acreditar no que a mãe acreditava, é colocar seu testemunho à contramão de um processo que pode elevar essa mulher à imagem que todos almejam, ao mito que filhos e parentes desejam.

Para alguém como o protagonista, o circo que se monta faz menos sentido que os pedidos do filho para que Deus vá embora e lhe dê liberdade – ainda que por algum tempo. A criança é sincera e não vê contradições: a necessidade de ser livre e a existência de Deus não são excludentes. A ingenuidade torna a questão ainda mais fascinante.

Ao procurar pela professora de religião do menino, Ernesto surpreende-se: esperava encontrar uma mulher feia, como costumam ser, segundo ele, as professores de religião. Encontra uma bela mulher, uma musa, figura quase irreal. Talvez a representação da beleza inalcançável, alguém que, pela arte, tenta lhe apontar a necessidade de crer em algo maior.

Dirigi-lhe um poema no primeiro encontro entre ambos, quando o homem não consegue mais despregar os olhos da moça. “Isso não basta”, diz ela, pelos versos, para tentar explicar por que é preciso acreditar em Deus. Apesar de todas as coisas que podem dar certo, sem a intervenção de um ser supremo não é possível justificar a existência.

Ernesto, de alguma forma, tenta entender o argumento, ainda que pareça fuga. E não muda de lado. Começa e termina como um ateu, sem ir ao encontro com o papa, obrigado, ainda, a viver sob o fantasma da mãe cuja morte não desejava.

Em entrevista à revista Film Comment, em 2013, Bellocchio fala da mudança de suas personagens ao longo dos anos: “Enquanto em De Punhos Cerrados compartilho ou apoio moralmente a escolha do protagonista de matar a mãe – não de maneira criminosa, mas filosófica -, em A Hora da Religião estou do lado da personagem que rejeita o assassinato”. Religião e mãe conjugam-se, não deixam Ernesto em paz.

(L’ora di religione (Il sorriso di mia madre), Marco Bellocchio, 2002)

Nota: ★★★★☆

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