Tempo de Despertar, de Penny Marshall

O primeiro passo de Leonard Lowe à liberdade dá-se graças a um médico. Em estado aparentemente vegetativo, ele recebe uma droga para acordar do sono que o toma praticamente a vida toda. O segundo passo, em Tempo de Despertar, é mais difícil e terá de ser dado pelo próprio Leonard.

Curta nossa página no Facebook e siga nosso canal no YouTube

O caso dos pacientes “adormecidos” é uma saída interessante para o filme de Penny Marshall questionar o que é estar vivo. Ou mais: questionar se as pessoas de fora, aparentemente livres, não estariam, ao contrário dos pacientes, em sono profundo. A certa altura, ao médico e amigo interpretado por Robin Williams, Leonard diz que deseja declarar aos outros a maravilha que é estar vivo e livre.

Não apenas Leonard, mas diversos pacientes. A história dessa mudança, desse acordar, começa com a chegada de Malcolm Sayer (Williams) ao hospital psiquiátrico. Ao estudar caso a caso, ele descobre o traço comum do problema que atinge a todos.

O filme consegue dribla as questões médicas e prefere o drama, ou as explicações que servem ao leigo. Portanto, pensar em “sono” é mais interessante do que em qualquer explicação científica para tal – além de fornecer boa metáfora.

Mesmo secundário, Leonard é essencial para que se compreenda Malcolm, o protagonista. A cada afirmação aparentemente banal do paciente, o médico reage com certo estranhamento, com o sorriso contido que Williams domina como poucos.

Desde o início, Tempo de Despertar reforça a ideia de quebrar padrões. Enquanto “dormem”, os pacientes reagem a estímulos, aos modelos de seu meio. Uma mulher internada só consegue caminhar até a janela da sala quando médico e enfermeira pintam de preto partes do chão, como um tabuleiro de xadrez.

A paciente chega então ao ponto desejado, à janela, com o olhar à rua. Todos, entre eles Leonard, desejam sair dali. É o problema imposto na segunda parte da obra de Marshall: como será o choque dessas pessoas com o novo mundo moderno, com o que há para fora da instituição, das paredes frias às quais foram confinadas? Ao despertarem do sono, tentam justamente quebrar padrões. O maior será escapar do local, no possível encontro entre universos que não chega a se concretizar por completo.

Em momento inspirado, Robert De Niro contorce-se para viver Leonard: ao despertar, seu controle sobre a personagem é tamanha que o espectador nunca duvida de dois seres em um. É o mesmo homem que antes “dormia”, que volta a olhar para nada e ao mesmo tempo para tudo, a descobrir e a se esconder em igual medida.

Em andanças pelos corredores do hospital psiquiátrico, ele conhece uma garota que vai ao local visitar o pai, vítima de derrame. Ela (Penelope Ann Miller) aproxima-se de Leonard. Nasce uma pequena história de amor – ou de necessidade de contato, de ter alguém? – na qual ele é capaz de dar respostas sobre o silêncio do pai dela.

Ao fim, outro padrão quebrado: o médico, então resistente aos flertes da enfermeira, corre ao estacionamento do hospital – não sem gritar da janela, situação comum a dramas do tipo – para convidá-la a um café. Ainda que por pouco tempo, não foram apenas os pacientes que deram um passo à frente e despertaram.

(Awakenings, Penny Marshall, 1990)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Vídeo: As Pontes de Madison

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s