Sombras da Vida, de David Lowery

O fantasma é materializado na fantasia que crianças usam em festas de Halloween. Forma conhecida: tecido branco sobre a cabeça, buracos na altura dos olhos. O fantasma mais simples possível para a história de um espectro melancólico, preso à casa em que viveu seus últimos suspiros ao lado da mulher amada.

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Essa “história de fantasma” é também uma história de solidão. A forma conhecida, com o tecido, serviria, diriam alguns, ao terror desgastado. Aqui, abre-se ao drama sobre a vida que passa, ao ser condenado a assistir o tempo para, talvez, no futuro ou mesmo no passado, alcançar a mensagem deixada pela mulher de sua vida – agora a de sua morte.

Não existem casas assombradas, diz David Lowery em Sombras da Vida. Existem fantasmas solitários. Dessa história é possível tirar muita coisa, para além da “história de fantasma”. E da máscara branca a escorrer pelo corpo, a dar volume, com seus dois buracos escuros, é possível ver algo que invariavelmente remete à dor.

Faz-se muito com muito pouco. O filme é criativo, de narrativa lenta, com a decantação do tempo perante o público. É justamente sobre o tempo – não o humano, mas o fantasmagórico, o que só pode ser assistido pela criatura entre o céu e a Terra e que, talvez por amor, não consegue ir embora – preso à velha casa, ao seu terreno, à sua criação e queda.

Sobretudo à casa. Mais que à mulher. É o enigma que pode resolver toda a questão: o fantasma ao centro da história atravessa o tempo da casa, da saída da companheira à chegada da nova família, da saída de um grupo de amigos à destruição da moradia para a construção de um prédio. O futuro avizinha-se. A casa some. Os arranha-céus anunciam o fim do espaço pequeno, da vizinhança pacata. O futuro mata o observador.

É quando volta ao passado, sobrevive ao fim do mundo, aos milênios, à constituição das estrelas e seus pedaços, ao nascimento de um novo planeta para chamar de Terra – com nova casa para chamar de lar. Um dos moradores dessa casa levanta a questão: a humanidade é cíclica, a arte faz com que o homem continue. Para que sobreviver senão por Beethoven e sua Nona Sinfonia?

Não por acaso, o fantasma, em vida, foi músico. Vivido por Casey Affleck, ele quer estar naquela casa, criar raízes, gosta do local e de seu velho piano no canto da parede. A mulher, interpretada por Rooney Mara, quer se mudar e, no início, explica que passou boa parte da vida se mudando. Quando o marido morre, ela muda.

De volta ao recomeço, o fantasma assiste aos primeiros alicerces da propriedade na qual, séculos à frente, viverá com a futura mulher. Ou a casa em que alguém como ele, em outra dimensão possível e paralela, passará um punhado de dias felizes com a companheira. Sombras da Vida faz pensar no vazio que fica, não em quem vai embora.

Valoriza espaços de vivência, paredes e tetos sob os quais se cria algo, as histórias – boas ou más, passageiras ou não – vividas em seus limites. O fantasma não quer ir embora, ou não pode, porque faz parte dessa dimensão aparentemente pequena que os humanos insistem em detonar, pela qual, séculos antes, morreram para defender.

O espectro preso ao tempo convoca o olhar às pequenas coisas. O máximo, para além dali, é a vista da janela. Surge na casa vizinha outro fantasma. As próprias moradias, a certa altura, reduzem-se a carcaças, ao mesmo tempo em que o fantasma, protagonista silencioso, insiste em encontrar o bilhete da amada, depositado no buraco do batente de madeira. Espera milênios por esse instante, apenas para ler essa mensagem.

(A Ghost Story, David Lowery, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Suspiria: A Dança do Medo, de Luca Guadagnino

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