Nelson Pereira dos Santos: “Eu fui formado pelo neorrealismo”

O neorrealismo foi uma lição de produção, mais do que uma lição estética. Uma lição de como fazer filmes num país como o nosso, sem recursos. Não precisava passar por aquele caminho difícil, complicado, ter grandes estúdios, muito dinheiro, atores famosos, atores conhecidos internacionalmente, era câmera e o povo na frente, daí vem, mais tarde, a frase do Glauber [Rocha].

 

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Eu fui formado pelo neorrealismo, antes do neorrealismo eu fui formado pelo John Ford. Na época, a dieta era cinema americano mais cinema americano e como sobremesa cinema americano, eu só fui conhecer o cinema europeu quando terminou a guerra, o cine-clubes voltaram a funcionar e o cinema italiano chegou aqui. O cinema novo também tem o seu momento que é a grande revolução da linguagem, quer dizer, o rompimento do plano tradicional, da montagem interior, isso tudo vai aparecer com os jovens do cinema novo. Eu fui influenciado também, mas não tanto, porque eu já estava no meu quinto filme. Como grupo fazendo cinema não havia, não era um grupo com pensamento único, cada um tinha o seu mundo diferente, mas o que havia em comum era a demonstração de que a linguagem universal do cinema tinha sido dominada por alguns brasileiros. E que essa linguagem universal estava sendo utilizada para a recuperação da nossa memória cultural. Então, o cinema novo estava intimamente ligado a todo processo de descolonização da cultura brasileira, iniciado na Semana de Arte Moderna, afirmando, que esse processo é longo, é antigo, mas a Semana de Arte Moderna foi um momento de grande afirmação da descolonização cultural brasileira.

 

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O cinema é uma arte que está se consolidando, só tem 100 anos, o cinema é uma produção, é uma realização, uma criação baseada no artista, seja ele o diretor, o argumentista, um grupo, tal, mas é uma criação fora de um sistema industrial, ele vai virar indústria porque vai ser exibido, vai ser distribuído e etc. E o cinema, por que ele tem que ter essa liberdade de criação? Porque ele é o espelho da sociedade, mesmo nos EUA com toda aquela coisa, a criação individual é respeitadíssima e a visão, o olhar de cada cineasta, de cada momento da sociedade americana é completamente livre, e não há nenhuma questão social nos EUA que não tenha sido observada do ponto de vista do cineasta e observada pluralmente. Havia, por exemplo, a questão racial, a questão da guerra do Vietnã, tudo isso.

Nelson Pereira dos Santos, cineasta, no programa Roda Vida, da TV Cultura (2 de março de 1999; leia aqui a entrevista na íntegra).

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