Crescer é se perder: dois filmes novos sobre crises adolescentes

Os problemas de Kayla (Elsie Fisher) estão ligados a ela mesma. Os de Cameron (Chloë Grace Moretz) devem-se aos outros. A primeira, protagonista de Oitava Série, não consegue se encaixar em seu próprio tempo, a adolescência. A segunda, à frente de O Mau Exemplo de Cameron Post, é enviada a um espaço para “cura gay”, é reprimida.

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Ambas adolescentes, são de idades e épocas diferentes. À primeira vista, diferem-se em tudo. Kayla entra nesse tempo de transformações e luta nesse rito de passagem; Cameron luta para estar fora dele, para não ser mais a menina “descontrolada”, a “pecadora”, a que precisa se curar dos problemas que causou. A adolescência parece-lhe traumática.

Em ambas as obras – uma pela comédia com toques dramáticos, a outra em uma drama cozido a fogo baixo – as meninas enfrentam a dificuldade de crescer e colocam em xeque suas próprias existências, suas novas descobertas, seus novos espaços e amigos para conviver. Kayla quer descobrir o sexo; Cameron é punida por desejar alguém do mesmo sexo.

Em Oitava Série o tempo é o atual. A menina faz vídeos para a internet, sua forma de dizer o que pensa sem encarar os outros, maneira como – e talvez sem saber – olha para dentro de si e, curiosamente, solta colocações com maior profundidade. Se à câmera portátil de seu computador parece tão normal, aos outros será a esquisita.

Paga por essa aparência, esse clichê do adolescente supostamente estranho, que não consegue se misturar: é alguém cujo peso do mundo ao redor, com constância, cai-lhe aos ombros, faz-se sentir, à medida que observa a tudo e a todos petrificada, a vagar como que por uma força externa, carregada pelo nada até sua casa, para se esconder.

Mas algo ocorre: Kayla conhece uma garota mais velha, mais experiente, nova amiga que lhe mostra que nem todos são idiotas como os jovens de sua idade. Outro obstáculo: ela tem dificuldades para caber em um universo de outras conversas, em que os meninos não perguntam se podem parar o carro e atacam as meninas no banco de trás.

De qualquer forma, ela fica perdida, entre um grupo e outro, sem ter a resposta desejada – ou apenas a ponta de intimidade para conversar sobre qualquer coisa, como sexo – do pai, Mark (Josh Hamilton). Gosta do menino mais chato entre todos, tenta se misturar às meninas que a ignoram, atravessa espaços como se estivesse à mira de um pelotão de fuzilamento.

Se a graça da adolescência não se faz sentir e mais parece problema para Kayla, para Cameron a festa toda acaba cedo demais: sua homossexualidade não é aceita pela família que cuida dela. Cameron não tem pais. Ao ser flagrada pelo namorado aos beijos com outra menina, vê seu mundo desabar e termina em um retiro para “cura gay”.

Seu tempo é o início dos anos 90. Ao invés dos vídeos no YouTube, fitas cassete – incluindo as de bandas consideradas “perigosas” pelos carolas do retiro em que é colocada. Ao redor, jovens negam seus desejos, acreditam que podem ser o que não são. Enquanto o tempo passa, e enquanto faz amizades, Cameron percebe estar entre pessoas perturbadas.

O drama da protagonista de Oitava Série parece menor se comparado ao da protagonista de Cameron Post. A câmera do diretor Bo Burnham reflete o olhar de Kayla, seu problema ao acreditar ser o que os outros querem – e acreditam – que seja. 

No caso de Cameron Post, a distorção parte dos líderes do retiro, dos fundamentalistas religiosos em geral: todos olham para Cameron como alguém diferente, ao passo que, à câmera, sempre fica uma menina leve, natural, de sentimentos verdadeiros.

A diretora Desiree Akhavan oferece em Cameron um estado estranho em que toda a sensibilidade que carrega – nos beijos e nos toques à companheira, no jeito de se assustar com os argumentos alheios, na maneira como canta “What’s Up?”, do 4 Non Blondes – começa a ser invadida por pesadelos, interrupções, pelo medo presente naquele local afastado.

Em dado momento, diz a canção citada: “E então eu acordo de manhã e piso lá fora/ E respiro profundamente/ E eu fico realmente bem/ E eu grito do fundo dos meus pulmões/ ‘O que está acontecendo?’”. É sobre Cameron, sem dúvida, e também serve para Kayla.

(Eighth Grade, Bo Burnham, 2018)
(The Miseducation of Cameron Post, Desiree Akhavan, 2018)

Notas:
Oitava Série: ★★★☆☆
O Mau Exemplo de Cameron Post: ★★★☆☆

Foto: O Mau Exemplo de Cameron Post

Veja também:
Boy Erased: Uma Verdade Anulada, de Joel Edgerton

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