Coringa, de Todd Phillips

Os três rapazes que espancam Arthur Fleck no metrô frequentam os mesmos ambientes de Bruce Wayne, comem e bebem como Bruce Wayne e, é certo, não tivesse se tornado um herói e ganhado consciência após a morte dos pais, o mesmo Bruce poderia estar entre eles – disposto a bater em um palhaço que não para de rir, que ri com sofrimento.

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Arthur está do outro lado, classe oposta à do futuro dono da máscara do Batman: é um rapaz em um apartamento velho, com uma mãe doente para cuidar, vestido de palhaço para ganhar alguns trocados, alguém que sonha em se tornar comediante, mas que não consegue fazer os outros rirem. É, em Coringa, o fracassado.

Aos que viveram para perder, ser o mocinho é o mais difícil. A saída à vilania é sempre a mais fácil. No caso de Arthur, o efeito acidental confunde-se com a consequência. Tão fraco, candidato a esmurrado por outros que, como ele, foram deixados à sarjeta, o protagonista retira da tragédia o motivo para mudar algo, para matar indesejados.

No processo de loucura que é sua própria jornada, Arthur descobre as relações da mãe – verdadeiras ou não – com um homem rico e poderoso de Gothan City. Talvez seja seu pai, talvez não passe de delírio de sua mãe. Resta o outro lado do portão, sem acesso à grande casa, a tropeçar no lixo que se acumula em calçadas e becos.

Antes de se transformar no Coringa e aparecer, Arthur é o ressentido, o filho bastardo de uma sociedade que não dá espaço para todos; o excluído em busca da própria voz, ação, palco, ou a servir de modelo à multidão que veste máscaras e passa a louvá-lo. Justamente ele, destinado a sumir, é colocado no banco de entrevistas de um programa de televisão, feito o palhaço maior, com a cara pintada e o livro de piadas a tiracolo.

Uma delas, como tantas, não tem graça. “Toc, toc”, diz ao apresentador experiente (Robert De Niro), que ainda tenta arrancar algo engraçado. Só faz sentido para ele: é som de quem bate para entrar, de quem está fora, de quem quer fazer parte de uma festa à qual – como a multidão que protesta pelas ruas, a explodir – não foi convidado.

A arma é personagem importante, não um mero acessório. Coringa, de Todd Phillips, não deixa de ser uma crítica ao armamento. Por causa da arma (mas não só por causa dela, que fique claro), a personagem tem a vida transformada: perde o emprego e passa a matar pessoas. Da vizinha interpretada por Zazie Beetz vem o gesto com os dedos que imitam a arma, a solução final, o que a torna atraente.

E ao fracassado que não encontra seu lugar ao sol, a arma é a solução. A certa altura, ao descobrir ser uma marca, um mito, Arthur entende que não precisa mais se esconder. Quando não se é ninguém, não é necessário se preocupar em ocultar a identidade. Ao contrário, é a máscara do palhaço que o torna alguém.

Joaquin Phoenix dança e se contorce na personagem-título. Corre como um natural desastrado, com medo, não raro uma criança sem muita noção do que pode fazer. Quando dispara um tiro no interior de seu apartamento, apressa-se para levantar o som do rádio, para esconder sua travessura, como o jovem virgem com algo a esconder.

O riso é descontrolado, envolve dor. Problema neurológico. Riso chato, por isso mesmo funcional. Em um filme sobre um homem consumido pela loucura, a gargalhada é o sinal que muitos se recusam a ver. Arthur não tem controle sobre si próprio e, para a surpresa dos outros, em meio a tanto lixo, parece ver graça em tudo.

(Joker, Todd Phillips, 2019)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Midsommar: O Mal Não Espera a Noite, de Ari Aster

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