Sócios no Amor, de Ernst Lubitsch

Um ano antes de o Código Hays ficar mais rigoroso, o cinema americano ainda podia lançar pérolas como Sócios no Amor, de Ernst Lubitsch. Em 1933, em plena Depressão, a enérgica Miriam Hopkins é a jovem que ensina dois homens a se darem bem, ao passo que se apaixonam pela moça.

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Antes dela, eram amigos inseparáveis e dividiam um apartamento sujo em Paris. Um deles, Thomas Chambers (Fredric March), é escritor; o outro, George Curtis (Gary Cooper), é pintor. Falta a ambos o toque conferido pela dama, Gilda Farrell.

O problema é que ela não pode amar apenas um. No início, ao desenhá-los como caricatura em seu caderno, na cabine do trem, Gilda logo evidencia o tema da obra: os homens, quase sempre dominadores, são transformados pela mulher. A distorção tem justificativa: ao verem o desenho, eles não se reconhecem com facilidade.

A comédia de diálogos apimentados de Lubitsch é sobre a “sujeira” que brota dessa vida feliz, do relacionamento liberal, a três, que ganha espaço. A cada vez que deita na cama dos homens, Gilda faz a poeira subir, como se algo viesse à superfície. Após se encontrar com George e Thomas em diferentes horários, ela resolve explicar que prefere ter os dois. Como outras comédias da época, Sócios no Amor, da peça de Noel Coward, com o roteiro do genial Ben Hecht, leva o sexo às entrelinhas.

Enquanto Thomas e George fingem seriedade, com dificuldade para aceitar a liberdade dela, a moça não consegue explicar suas intenções. E não precisa: a sofisticação de Lubitsch permite que a situação geral – a garota que deseja dois homens ao mesmo tempo – não ganhe peso maior que a diversão. Ao contrário, é parte dela.

O amor é acessório, brincadeira; o prazer ganha espaço com pessoas descontraídas em festas feitas de joguinhos levemente imorais. Nas grandes casas, os quartos possuem divisórias para que amantes escondam-se, além de camas para três pessoas.

Tudo às claras, ao mesmo tempo devidamente escondido, ou no seu lugar. Há espaço ainda para o amigo gay, papel que cabe, claro, a Edward Everett Horton – o eterno parceiro de Fred Astaire em seus musicais. Como Max, ele começa como amigo e termina como marido traído. Para ele, o mais importante na dama não é o sexo.

A força do filme deve-se principalmente a Miriam Hopkins, a quem um mínimo esforço deixa aparecer as intenções. Pode beijar ambos e, nos momentos finais, pedir que cumpram um acordo de cavalheiros que ela talvez não possa obedecer. Uma delícia que o conservadorismo americano logo trataria de solapar.

(Design for Living, Ernst Lubitsch, 1933)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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