Ad Astra, de James Gray

Atrás de vida alienígena, em viagem a planetas distantes, o pai desaparece no espaço. O filho, para resgatá-lo, segue o mesmo caminho. A ligação entre ambos – de sangue, de humanos que se compreendem – é o que mais importa em Ad Astra. Mais que extraterrestres, o homem precisa encara o que há de mais precioso no universo: ele próprio.

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Encontrar o outro – a extensão direta de quem procura – significa dizer que, no fim das contas, o homem está sempre em busca de si mesmo. O filho é o herói frio que pouco a pouco se dobra, solta uma lágrima, deixa o coração bater no filme de James Gray.

Ele, Roy McBride (Brad Pitt), tem fama de controlado: ao convidá-lo à missão, seus superiores salientam sua capacidade de manter o coração a não mais de 80 batimentos por segundo. Tal marca ajuda a alimentar, até algum ponto do espaço escuro, rumo a outros planetas, alguém robótico, militar em excesso, um tanto desumano.

Por sorte, Pitt sabe como soltar seu ponto fraco. Ou seria a parte mais forte? Equilibra-se no tipo que sofre em solidão, ou na companhia de poucos, ou à espera do inimaginável enquanto navega por águas estranhas, buracos vazios, latas que ainda flutuam, mesmo mortas, ao longo da galáxia à qual se jogou para salvar seu próprio humanismo.

Sim, o humanismo que aprendeu a represar, enquanto satisfez superiores com testes psicológicos sempre aprovados – ou quase sempre. Em um futuro de exploração espacial, de Lua ocupada, de Marte ocupado, de saqueadores e conspirações que passam por governos, o herói percebe que refazer a jornada do pai é descobrir seu recomeço.

O pai deixou a vida na Terra para encontrar novas vidas, o que talvez justificasse – a ele, ao menos – a existência de Deus. Como um universo tão grande pode reservar o dom da vida a apenas um planeta, a apenas um grupo de seres imperfeitos dedicados a destruir coisas, ou a ocupar astros desérticos para, sobre eles, inaugurar shopping centers?

O uso dos meios científicos para alcançar o divino, aqui, dá vez ao homem desequilibrado. Gray repete, no tema e no visual, o caminho de Kubrick com seu 2001: Uma Odisseia no Espaço: a viagem espacial baseia-se no renascimento, retorno ao ponto de origem. O alienígena é apenas um ser sem forma, sem vida, que obriga o homem a ver seu reflexo.

O pai, interpretado por um Tommy Lee Jones desesperado, que com seus poucos minutos em tela dá conta de resumir toda sua desilusão, é uma espécie de Ahab, o capitão de Moby Dick, cuja viagem para caçar a besta revela-se o caminho para espreitar a própria morte. A baleia não é o mais importante; na verdade, é a desculpa para alimentar sua obsessão.

O caminho do filho ao pai louco fornece o olhar ao espelho invertido, a parte de si mesmo que não se quer ver: alguém isolado em sua própria ilha, preso às próprias ideias, vivo para provar a si mesmo, pobre coitado, de que está certo. Vive para o impossível, ao mesmo tempo em que fracassa com os humanos, a começar pelo filho, ao mesmo tempo que, talvez sem saber, causa tempestades elétricas que matam pessoas na Terra.

Gray é meticuloso, não tem pressa, não deixa nada fora do lugar, perfeito na construção de ambientes e na imersão àquele espaço de nada que, a cada nave ou planeta, reserva uma aventura. Em Ad Astra, aprisiona sua personagem central ao som abafado, aos cenários que remetem ao passado, às vezes a uma ficção científica livremente falsa.

O herói, a certa altura, depara-se com primatas em uma nave espacial. Os animais atacam e devoram os homens. Depara-se com seus antepassados, o que deixa ainda mais claro o fracasso de seu pai: enquanto corre atrás do impossível, da comprovação da existência de Deus, retornam os traços da origem, as espécies do planeta Terra.

(Idem, James Gray, 2019)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

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