Suspiria: A Dança do Medo, de Luca Guadagnino

O feminismo aproxima-se – mas não se apropria – do terror. As bruxas podem ser feministas sem que pareçam monstros enclausurados, escondidos, prestes a dar as caras e atacar qualquer um que atente à ordem da escola de balé. São mulheres fechadas, estranhas, que fazem da expressão do corpo – a dança – uma expressão de força.

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Do grande filme de Dario Argento ficam apenas as linhas gerais. Com Suspiria: A Dança do Medo, o italiano Luca Guadagnino quer ir mais longe, em momentos soa exagerado, ao passo que o terror, sobretudo nos primeiros momentos, beira um gesto histérico. Fica inclusive a impressão de que as mulheres, moças e senhoras, devem ser analisadas à luz da psicologia, apenas, e que não passam de mulheres perturbadas.

A protagonista acaba de chegar a uma escola de balé em Berlim, nos anos 1970. Anos de agitação política, de Baader-Meinhof, de protestos e intimidações ao Estado. Para fora, claro, há o convite à resistência, à mudança. O império das mulheres de Suspiria – ao qual a nova bailarina logo é integrada – representa uma resistência, ainda que à parte.

Ao incluir, em paralelo, a política do mundo externo, verdadeira e pulsante, e ao retornar a ela tantas vezes com notícias de rádio e tevê, o roteiro de David Kajganich concede novas camadas. Como se todo um mundo em transformação, em uma História corrente, não afetasse o mundo parado das bruxas, que condenam a maternidade convencional.

Elas sobreviveram à passagem do tempo com seus próprios meios de reprodução, para não depender dos homens. Importante, por isso, mostrar a mãe da protagonista Susie, seu gesto de confronto – ao dar à luz – e, ao mesmo tempo, seu caminhar à morte, à espera de um padre (um homem) para orar por ela, ainda no início do filme.

Susie (Dakota Johnson) é quem fura o cerco das bruxas, que pode ser outra bruxa – ou outra feminista, a não depender de qualquer homem, tampouco viver da autofagia criada pela escola de balé – sem renegar sua origem, a mulher (mãe) que lhe proporciona a vida como revolução (interna), distante do mundo do lado de fora.

O retorno ao passado é necessário. Na casa da mãe, ainda cedo, há dizeres interessantes em um quadro na parede: “Uma mãe pode assumir o lugar de qualquer um, mas ninguém pode assumir o seu”. Já se disse que o filme é sobre morte. Na verdade, é o oposto: ao reforçar a maternidade, é sobre vida, sobre uma nova ordem.

Susie – ainda que Johnson nunca ajude – é a resposta um pouco fria a esse estado de destruição de dentro para fora, mundo do balé no qual a expressão do corpo carrega dor, em que a perfeição da dança é paralela à imperfeição vista em outras salas, com a morte de outras bailarinas, ou nos porões e ambientes secretos da escola.

A protagonista é acompanhada pela estranha madame Blanc (Tilda Swinton). Do lado de fora surge o psicólogo Klemperer (Swinton) e, à frente, no fim, uma figura grotesca que aguarda um novo corpo para renascer, Helena Markos (Swinton). Uma atriz para três representações distintas: o invasor é o homem, o sobrevivente do Holocausto; a professora de balé coloca-se ao centro dessa transição ao universo das trevas e, curiosamente, vê-se apaixonada pela nova bailarina; por fim, o monstro, o mal, o grotesco.

A montagem alternada alimenta a loucura. A vida de Susie está ligada à das outras mulheres. A vida das mais velhas está ligada à das mais jovens. A do homem que espreita a escola e investiga está ligada à possível bruxaria que agora se põe aos olhos do cético, vítima dos horrores do mundo real, da nação que, sob o nazismo, matou sua mulher.

A versão de Argento oferece a estética do sonho, cores fortes que carregam o espectador pouco a pouco a um universo devastador. A de Guadagnino prefere tons mofados, entre marrom e cinza, uma cidade sem sol e neve constante. A versão mais recente é sobre o nascimento de uma nova mãe, nova líder da escola de balé, também uma bruxa.

(Suspiria, Luca Guadagnino, 2018)

Nota: ★★★☆☆

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