Macbeth, de Orson Welles

Como lembra o crítico André Bazin, Orson Welles gastou 75 mil dólares para fazer seu Macbeth em 21 dias de filmagem. É a tentativa de ter o máximo com o mínimo, contornos de obra épica em espaço reduzido. A falta de recursos salta à tela. O sucesso ou o fracasso de um filme felizmente nada tem a ver com seu orçamento.

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O “mínimo” de Welles consegue captar o pesadelo da história shakespeariana. O ambiente de Macbeth – o dito “reinado de sangue” – é um teatro em que tudo está dado, em que o místico eclipsa o poder, ou antes o manipula. Macbeth (Welles) condena-se desde o início, quando encontra três bruxas sem face, apenas com vozes.

As bruxas falam sobre o futuro do guerreiro: logo, para sua própria surpresa, tornar-se-á rei. As mesmas personagens moldam, nos primeiros instantes, um ser feito de lama, dão forma ao desforme, como parece ser tudo o que rodeia o protagonista: o reino de fundo falso, no qual se vê sujeira – literal ou não – a todo o momento.

São sombras sobre sangue e lama, através de grutas. Não há requinte no castelo. Os 75 mil dólares operam milagres. Das supostas debilidades Welles lança-se àquilo que não precisa ser escondido, àquilo que talvez pertença ao espírito de um reino podre composto por assassinatos, más influências e traições: a lama, neste caso, faz sentido.

Rostos e confissões são abundantes, o medo e até mesmo a inocência também. A confiança nas bruxas revela o quanto esse protagonista de Shakespeare não foge à regra: Macbeth reconhece que o poder serve antes às crenças, aos mundos impossíveis, à ilusão, ao destino que não pode domar – mesmo com tanto poder, seja para matar, seja para ainda tentar, em vão, contornar o destino.

O homem deixa-se levar pela mulher. Ao retornar da guerra, o futuro rei encontra-se com Lady Macbeth (Jeanette Nolan). Estão de lados diferentes: enquanto ela tenta persuadi-lo a matar o rei e tomar o trono, ele ainda pensa nos efeitos do ato. O homem revela consciência antes de se lançar ao desafio. Ela, ao contrário, impõe antes o desafio e, depois, lança-se no desfiladeiro – tomada, talvez, pelo remorso.

Como avisam as bruxas, o reinado de Macbeth deverá se desfazer caso a floresta ganhe movimento, e caso o inimigo não tenha saído da barriga de uma mulher. Coisas impossíveis, por caminhos estranhos, concretizam-se na história de Shakespeare.

A composição não deixa enganar: o reino, antes, é de escuridão, de sujeira a bater nas pernas, de coroa de lanças, em cenário delimitado para fazer a grandeza do novo líder converter-se em pequenez, em sua própria prisão. O destino desse reinado é o próprio terror – ora em edição ágil, ora em belos planos-sequência.

Ao não evitar limitações, Welles coloca o espectador na vida como fábula, “cheia de som e fúria, que não significa nada”. Ao que parece, o novo rei, dono de tanto poder, é também o idiota levado ao óbvio. Terá a cabeça cortada, contra si o impossível. 

(Idem, Orson Welles, 1948)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O cinema, segundo Orson Welles

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