O Campeão, de Franco Zeffirelli

Como o protagonista de Perdidos na Noite, Joe Buck, o herói de O Campeão solta um sorriso seguro, tranquiliza o espectador: apesar das bebedeiras, dos jogos de dado, das dívidas, trata-se de um bom homem, simples, alguém que se recolhe em contrações faciais. John Voight, dono do rosto nos dois casos, sabe fazer isso como poucos.

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Seu sorriso indica o caipira bondoso, o homem traído pela cidade grande: no filme de John Schlesinger, ele deixa ver essas raízes e, com elas, mergulha em Nova York para descobrir o oposto do sonho, ou seu outro lado: Ratso Rizzo. O equilíbrio entre ambos – um doando o que de bom tem ao outro – é o que confere brilhantismo ao filme.

Para O Campeão fica apenas Joe, ou menos. Apenas o bom homem contra forças que não pode controlar, o “cabeça dura” que vive com o filho em um espaço de cavalos, à beira do hipódromo, no qual não pode dar mais que pouco ao menino louro e sorridente. Aqui não há troca: o garoto (Ricky Schroder) apenas amplifica o drama que começa no pai.

Não estranha se alguém ver nele a continuação de Joe, que sonhava com a América de sol e praia, com algo como Miami e sua latinidade, com o suco de laranja com gelo todos os dias enquanto, de camisa florida, via-se rodeado de belas mulheres à areia. Mas ao natural perdedor Billy Flynn fica, como consolo, a “nova” América de Rocky: Um Lutador.

A América do boxeador branco a gritar, coberto por hematomas, ao fim da luta da vida, por quem pode correr para abraçá-lo, para chegar à catarse dos piores dramalhões: com Stallone, um grito pela mulher; com Voight, um pelo pequeno filho que durante o filme todo lhe chamou de campeão – como se, ingênuo, fosse o único que soubesse do desfecho.

O retorno ao sonhador causa cansaço. Ao centro, o homem de coração grande remete aos heróis de Frank Capra, em país no qual a Depressão deu lugar ao sol: o incorreto camarada que ganha dinheiro com o jogo e enche o carro conversível de presentes para distribuí-los aos amigos. Ao filho, compra um cavalo que será treinado para corridas.

Os trambiqueiros merecem um voto de fé, os ricos são bondosos, educados, e possuem laços com os excluídos. Os mundos tocam-se com facilidade. No meio de um desfile de roupas caras, composto pela narração de parte da História da Moda, Billy Flynn destoa em sua forma simplória, gato escaldado atrás de ajuda financeira.

Ele procura pela ex-companheira, mãe de seu filho, interpretada por Faye Dunaway, para pedir dinheiro emprestado. Em O Campeão, ela volta para assistir ao fim da queda e ao início de sua tão curta subida. Volta como esperança àqueles que torcem pelo garoto: mesmo se nada der certo, sobra ainda uma mãe rica para ficar com a criança.

O trabalho de Franco Zeffirelli está repleto de voltas e reviravoltas conhecidas, da desilusão do pai à lágrima do filho, da falta de respostas para a morte – quem poderá dá-las a um garoto em um filme como tal, que termina, claro, em morte? – à descoberta da mãe que, não se sabe o motivo ao certo, optou por ficar alguns anos a distância.

Os ensinamentos do pai ao filho – do incorreto à criança – soam involuntariamente cômicos. Segundo Billy, se um homem não consegue tirar as próprias calças, não é um homem. Algo simplista, típica frase do macho beberrão e ignorante. A calça é o que resta da elegância, item necessário para que não se veja sem nada quando está longe dos ringues. Pois ainda restam as pancadas, o esporte, o grito da torcida, a aflição da criança, a morte com glória.

(The Champ, Franco Zeffirelli, 1979)

Nota: ★☆☆☆☆

Veja também:
Bastidores: Perdidos na Noite

2 comentários sobre “O Campeão, de Franco Zeffirelli

  1. Gosto muito das construções desses textos.Corrobora o desenvolvimento do filme.E, mesmo sem vê-lo,descortina-se em cada parágrafo. São todos muito interessantes!

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