As mulheres apartadas de Ida Lupino

As protagonistas de dois filmes de Ida Lupino gritam e não são ouvidas. Em ambos os casos, ouvir não significa entender, gritar nem sempre leva ao som estridente. O que se vê, pela ótica da cineasta, é a mulher apartada, incompreendida, que em algum momento aceita e começa a acreditar na sua própria exclusão.

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A Carol (Sally Forrest) de Quem Ama Não Teme e a Ann (Mala Powers) de O Mundo é Culpado partem de dramas diferentes e chegam a situações semelhantes. A primeira é uma dançarina que descobre ter poliomielite, perde o movimento das pernas e é internada em uma clínica; a segunda é a funcionária de escritório estuprada por um homem quando retornava para casa, à noite, após mais um dia de trabalho.

Logo a exclusão ganha espaço: na clínica, Carol descobre um mundo à parte, feito de “outras” vidas, diferente do agito em que vivia. Em suma, o oposto ao “mundo às suas mãos” ao qual se entregava na companhia do futuro marido, companheiro de dança; no caso de Ann, o mundo aparentemente comum da família, da vizinhança e do trabalho desaba: a todos, ela passa a ser a mulher marcada, a abusada, a diferente. Só lhe resta fugir.

Nos dramas de Lupino, essas mulheres são apartadas do considerado convívio “normal”. Ao longo de diferentes jornadas, elas precisam caminhar com as próprias pernas ou encarar antigos demônios, descobrem o alargamento do mundo e a distância da realidade.

São filmes sobre mulheres, sobre a condição feminina no fim dos anos 1940 e início dos 1950, em um cinema clássico que flertar com o moderno – seja no tratamento do tema, seja na exposição do visual que traz à tona ambientes e pessoas reais, figuras sem retoques.

Em Quem Ama Não Teme há a sequência da dança dos cadeirantes; em O Mundo é Culpado, a corrida de Ann pela estrada, depois por morros, após golpear a cabeça de um homem que desejava se aproximar dela. Tomada por vultos do passado, pelo trauma do estupro, a moça passa a repelir qualquer aproximação masculina.

A começar por Carol, elas gritam. Talvez Carol grite mais, seja mais forte. Sua superação implica suportar o peso do corpo e, como teste, cruzar as pessoas pela calçada, outra vez naquele mundo “normal” de indiferença e olhares tortos, barulho e trabalho constantes.

O outro mundo que Carol descobre não é tão diferente do de Ann: à estrada, com o pé machucado, depois de tentar chegar a Los Angeles, a moça termina em uma fazenda, comunidade que, à época, talvez não fosse tão comum, algo que ela desconhece – organização horizontal, de pessoas que vivem do trabalho no campo.

Não estranha que se sinta atraída, que faça desse ambiente seu novo ponto de partida, ou apenas o local ideal para ser ninguém, desaparecer. Na cidade, Ann é vítima duas vezes: primeiro do estupro, depois das pessoas que insistem em enxergá-la como a nova impura, indigna de fazer parte do todo, marcada como está.

Ambas estão prestes a casar. Quando sofrem golpes e se excluem, passam a acreditar que o casamento – ou a continuidade da antiga relação – é impossível. Creem que não fazem mais parte. O matrimônio é a representação máxima de uma “sociedade normal”, base do acordo que visa a perpetuação das relações e da sobrevivência de determinado grupo.

Lupino descarta vilões fáceis. As mulheres lutam com si próprias e com todos. Olham para os lados, ou para dentro, e sofrem. Acuadas, não raro, outras vezes entre riso e choro. Não estranha se alguém ver nessas caracterizações a antecipação das ambiguidades de personagens que ganhariam vida nos rostos de Dorothy Malone, Joanne Woodward ou Patricia Neal. Em certo sentido, Lupino constrói a mulher moderna.

Mas nessa mulher moderna não está o papel feminista, a serviço de um cinema feminista. São fortes menos pelas escolhas finais (elas voltam para o amado, ou para casa), mais pela maneira como expressam a dor, como se debatem com o que não podem escolher. São mulheres frágeis que se fortalecem, nem damas fatais nem meninas ricas.

No drama dos homens, sempre houve espaço para o retorno, para a redenção, a retomada do poder perdido. Lupino, em duas histórias corajosas, expõe a dificuldade de retorno da mulher excluída e, ainda mais, o interior de personagens que não se resolvem facilmente.

Antes de saltar à direção, Lupino fez fama como atriz. Raoul Walsh dirigiu-a em Dentro da Noite, na pele de uma dama fatal quando esta ainda não era etiqueta do cinema noir. Se por um lado era associada à vilania, a dama fatal – com força e protagonismo – não podia ser ignorada.

Em outro grande filme de Walsh, Seu Último Refúgio, fez par com Humphrey Bogart – e ainda lhe roubou o crédito principal. Mas o filme, claro, é dele. Ao lado do ator, é a companhia que sobrou, não exatamente a que ele escolheu. Uma mulher fiel, excluída, não uma vilã. Papel perfeito para alguém como Ida Lupino.

Ao encontrar Sally Forrest ou Mala Powers, o espectador deverá imaginar Lupino nessas caracterizações, mulheres fortes que até certa altura soam fracas. Talvez a idade não permitisse à diretora acumular também essas personagens. Atrás das câmeras, ela entrega histórias econômicas e eficientes, direção segura.

Para medir o tamanho desse talento, basta voltar à sequência do estupro em O Mundo é Culpado – sem trilha sonora, apenas com o movimento de duas personagens, enquadramentos e deslocamentos perfeitos, em tensão crescente que percorre becos às sombras, à medida que a mulher desespera-se sem que possa ser ouvida.

(Never Fear, Ida Lupino, 1949)
(Outrage, Ida Lupino, 1950)

Notas:
Quem Ama Não Teme:
★★★★☆
O Mundo é Culpado: ★★★★☆

Foto 1: O Mundo é Culpado
Foto 2: Quem Ama Não Teme

Veja também:
Tess, uma acusação da hipocrisia e da injustiça

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