Boy Erased: Uma Verdade Anulada, de Joel Edgerton

A igreja é moldada à frieza, às sombras, entre branco e cinza, com homens que gostam de gritar. A intenção, em Boy Erased: Uma Verdade Anulada, é fazer jovens homossexuais transformarem-se em “homens de verdade”. Trata-se de uma instituição para a “cura gay”, à qual o protagonista é enviado pelos pais.

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O tratamento consiste em isolamento, situações que vão da análise da própria árvore genealógica – para encontrar algum parente com “desvio” – à prática de atividades físicas intensas, às ordens dos líderes, como em um ambiente militar. A intolerância e a incompreensão são levadas à frente pelos fundamentalistas religiosos.

O protagonista é Jared Eamons. Sua dor concentra-se no medo, no silêncio, na inclinação às regras dos pais e da própria Igreja. O pai (Russell Crowe) é pastor, a mãe (Nicole Kidman) segue os mesmos preceitos. O filho único vive escondido em uma ilha em que, até certa altura, ainda consegue permanecer. Com a adolescência, o pai logo joga a chave do carro em suas mãos, para que curta a noite com os amigos – e na companhia da namorada.

A máscara é insustentável. Certa dia, após uma relação sexual truncada com outro rapaz, o protagonista resolve confessar ter pensado em outros homens. Pai e mãe desabam. O filho entrega o videogame de “jogos violentos” (que o pai não aprovava) e se prende no quarto. O pai pede orientação, certa noite, a dois líderes da Igreja.

Para os religiosos, na natureza não existe homossexualidade. Nem aos olhos de Deus. Ou se é uma coisa ou é outra. Tudo seria comportamental, escolha, como por um esporte ou uma profissão. A visão estreita pouco a pouco deixa de fazer sentido ao jovem Jared, encurralado, assustado: na religião de sua família, homossexuais devem ser submetidos a um “encontro interno”, conversão que pode, inclusive, vir seguida pela violência.

O protagonista enxerga o fanatismo. Não são todos que conseguem. À clínica em penumbra, o diretor Joel Edgerton oferece os rascunhos de sempre, a cercar o herói: o rapaz gordinho que não aguenta a pressão; o menino que finge estar aceitando o tratamento; o outro já consumido pela mentira; a menina reclusa, frágil, de aparência doente.

O local oferece loucura, lança Jared ao oposto do que buscam os fanáticos: ao invés de enxergar a “cura” ou concordar com a necessidade de se converter, percebe o quanto precisa aceitar sua natureza e, por ela, chegar ao seu equilíbrio. Viver sem representações, sem fingir ser o “filho perfeito”, hétero, que os pais desejam.

Na tentativa de chegar ao conflito interno, às dúvidas da personagem e em seu encontro com a porta de saída, Boy Erased comete alguns tropeços. A impressão é que está mais preocupado com a acusação do que com a construção de personagens. A frieza passa do visual às pessoas, sem que se veja a sensibilidade do rapaz ao centro.

No papel de Jared, Lucas Hedges é engolido pelo estado apático geral, ao passo que a obra recorre à câmera lenta para tentar encaminhar o espectador ao drama de pessoas sem caminho. E não apenas o filho. Pai e mãe flutuam sem saber ao certo o que fazer, contra o fato de amarem um suposto pecador que paga pela coragem.

Para Marshall Eamons (Crowe), americano que “deu certo”, pastor e dono de uma concessionária de veículos que faz dos negócios um gatilho à força divina, calha o filho gay, o “castigo”. Ao fim, seus olhos marejam quando percebe que a conversão caberá a ele, o fundamentalista, não ao rapaz que agora o encara e não tem receio de suas escolhas.

(Boy Erased, Joel Edgerton, 2018)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
Paris is Burning, de Jennie Livingston

2 comentários sobre “Boy Erased: Uma Verdade Anulada, de Joel Edgerton

  1. As duas estrelas dadas ao filme relacionam-se aos atores, ao roteiro ou ao filme em si? Porque eu fiquei com vontade de assistir, mas essa baixa avaliação me deixou com dúvidas se vale a pena ou não.

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