Julgamento em Nuremberg, de Stanley Kramer

O juiz colocado no banco dos réus, interpretado por Burt Lancaster, explode e pede a palavra. Cansa das curvas e argumentos de seu advogado, que procura restabelecer certo valor entre alemães. Se êxito tiver, o advogado pretende mostrar que nem todos podem ser culpados pelo mal nazista. O juiz segue para outro caminho, faz revelações, questiona.

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A personagem de Lancaster pergunta onde todos estavam quando as vítimas “gritavam à noite”, enquanto eram levadas aos campos de concentração. Julgamento em Nuremberg demonstra então a que veio, e como é importante, ao olhar do cineasta Stanley Kramer, que os alemães confessem seus crimes.

Ainda mais: importante, e talvez até um pouco vergonhoso, que tudo fosse dito pelo grandalhão Lancaster, habituado a se esconder em sua fortaleza de ossos, ajudado pela maquiagem, a forjar o homem acima de qualquer suspeita que, pela conjunção histórica, pelo fôlego e fé dados por Adolf Hitler, deixou-se tragar.

Viu-se, ele próprio, do outro lado, no tribunal em que costumava julgar judeus, comunistas, ciganos e outros inimigos da pureza ariana. Lancaster, neste caso, pode soar poderoso ou depreciativo: um filme que pretende impor o duelo entre a lógica e a dúvida, em que nem todos parecem criminosos, em que não há vilões claros, o caminho da confissão como discurso parece ser o golpe baixo de uma obra grandiosa.

Felizmente é Lancaster, e por isso nem tudo está perdido. Os nazistas – não importando a esfera de atuação – serão culpados. Sabiam dos horrores. No entanto, Kramer não exclui o benefício da dúvida: ao lado, como que pelas frestas possíveis, Marlene Dietrich, a mulher de um oficial nazista, surge para dizer que nem todos sabiam da tragédia.

Diz ao protagonista de cabelos brancos cuja honestidade não se põe em dúvida, o juiz americano Dan Haywood (Spencer Tracy). Do material que são feitos os heróis (quase) ocultos, nos dramas hollywoodianos com viés social que criadores como Kramer serviram à perfeição. A eles, vale o mundo complicado, sem esquecer do local que cada um – herói ou vilão, ou apenas um, apenas outro – deverá certamente ocupar.

Por pouco, muito pouco, filmes como Julgamento em Nuremberg não chegam à grandiosidade que, talvez no nascedouro, foi-lhes designada. A aparência de imparcialidade soa possível justamente no advogado de defesa, veja só, um exaltado e ainda assim verdadeiro Maximilian Schell, para todos os efeitos um patriota.

Com Tracy e seu silêncio gritante, nada feito: ele é o homem que, desde o início, ao encarar os monumentos sobre os quais Hitler discursou, à medida que esse mesmo discurso ecoa em mente, não deixará passar uma história de glória a alguns, dor a muitos outros. Ao se servir do mais honesto dos atores, outra vez Kramer aproxima-se do erro.

Ao que parece, o advogado de Schell sai na defesa de um país, ou de parte dele; quer salvar sua Alemanha, evitar que todos sejam colocados na mesma vala destinada a juízes e promotores nazistas que, sem dúvida, sabiam o que estavam fazendo. Ao juiz de Tracy, vê-se a tentativa de julgar homens, seus casos e crimes.

Não se trata de culpar os alemães com antecedência. Kramer não era assim tão estúpido. Seu filme, apesar dos pontos fracos, não deixa saídas fáceis. Observar a história desses homens julgados – ou a História de um povo, de uma nação – com alguma distância, após o vendaval do nazismo e da Segunda Guerra, permite ver o impensável.

A câmera do cineasta circula as personagens durante suas falas. Coloca todos em foco, fundo e frente, dando a aparência de um estado de aperto, sala pequena para algo tão grande, para seres tão pesados. Ou, pelo semblante que prende a dor, de heroísmo represado, o que Spencer Tracy mais parece tratar como trabalho cotidiano, ainda que não seja.

As três horas levam ao centro dessa arena desconfortável que é o tribunal, à palavra, enquanto a câmera tenta encaixar homens e argumentos, esse texto grandioso que, dos mesmos homens julgados, aponta a um país, ou à responsabilidade dos que se aliaram aos nazistas. O mundo pós-guerra cabe naquela sala apertada.

(Judgment at Nuremberg, Stanley Kramer, 1961)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Vídeo: Julgamento em Nuremberg

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