Yesterday, de Danny Boyle

Interessados em agarrar o espectador pela via fácil, alguns filmes medíocres ainda deixam ver, aos cantos, algo que preste, alguma boa ideia para um público exigente. Acontece em Yesterday, quando determinados artistas, histórias e marcas desaparecem do planeta, após um estranho apagão global. O protagonista, Jack Malick (Himesh Patel), descobre a inexistência dos Beatles e assume a autoria de suas famosas canções.

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O filme de Danny Boyle é uma comédia agridoce que sai em defesa da cultura. Basta que uma pessoa – ou três – lembre um único verso para que tudo possa, outra vez, ser perpetuado. Yesterday é a história de um fracassado que, para aparecer, precisa reviver letras geniais de uma banda genial, o que não torna Jack um criminoso.

Ao resgatar os Beatles, ele torna-se, na verdade, um herói. Passa dias e noites tentando lembrar as canções. A memória viva é sua única arma para confrontar – no que mais parece um conto de fadas, claro – todo um planeta esquecido que, sem Beatles, Coca-Cola ou Harry Potter, ainda assim sobrevive e, às aparências, segue como sempre foi.

A cultura nutre-se da memória, encaminha ao deslumbramento, à felicidade, impregna de alma quem a porta e, por consequência, leva àquilo que o mesmo mundo não deletou: a sanha do enriquecimento. Não demora para que Malick, com os Beatles, torne-se um sucesso.

O medíocre portador da bela memória, não do grande talento, está pronto para se deixar lambuzar pela indústria cultural, para vender discos em grande volume, para lotar estádios. E nunca perde o jeito camarada, o do menino desavisado, cheio de dificuldades para se declarar à amada (Lily James), professora que prefere o fracassado.

Outra boa ideia está na memória não resgatada, ou a que não pode ser. No caso de Malick, um músico, cabe-lhe ressuscitar os Beatles. Mas a quem caberá resgatar a Coca-Cola? Outra vez, segundo o roteiro de Richard Curtis, na história que criou com Jack Barth, o mundo passaria bem sem a bebida. Ou alguém duvida?

Mas não seria o mesmo, é certo, sem o quarteto de Liverpool. O acesso é outro: a música vive na ponta da língua, na espontaneidade de qualquer pessoa que se pegue cantando. Uma transmissão fácil, algo que não se limita a uma fórmula trancada em cofre, ao qual apenas alguns poucos homens têm acesso. Algo como a Coca-Cola.

(Idem, Danny Boyle, 2019)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
Bohemian Rhapsody, de Bryan Singer

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