A Luz é para Todos, de Elia Kazan

A criança quer saber o que é um judeu. O pai tenta responder, mas sente alguma dificuldade para explicar por que muitos enxergam os judeus como diferentes. Ao lado da avó do menino, esse mesmo pai desconversa e o garoto termina o café da manhã sem saber tudo o que envolve a questão: o que torna alguns “diferentes” dos outros.

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Desse olhar infantil tira-se o essencial sobre A Luz é para Todos, que do ponto morno, na primeira parte, consegue empolgar em alguns momentos, rumo ao desfecho: as crianças não enxergam as diferenças não por incapacidade, mas porque elas não existem. Em seus excessos, com explicações e racionalização de tudo, os adultos não vão muito longe.

Ao longo da história corre a dor dos que tentam se explicar, ou conviver, nesse universo em que quase nunca se grita a inaceitação. Vive amortecida, ao fundo, ou sob os bons modos do gerente de hotel no qual judeus não podem se hospedar. O protagonista vivido por Gregory Peck é um jornalista que se passa por judeu para escrever sua história.

Desse ponto, o filme de Elia Kazan deixa o público em situação de suposto conforto: seu herói não é judeu. Nesse sentido, vive em uma natureza blindada, ainda que possa sentir um pouco do que os judeus sentem. Com texto de Moss Hart, da obra de Laura Z. Hobson, Kazan executa um filme elegante sobre o preconceito que resiste ao novo homem do pós-guerra.

O diretor aponta às mudanças que acompanham a época, o que se veria ainda mais em filmes posteriores – rumo não apenas ao realismo das imagens, mas a temas espinhosos que começavam a ganhar espaço em Hollywood. Nesse drama sobre antissemitismo, o problema pertence mais àqueles que tentam entendê-lo e o repudiam do que àqueles que efetivamente não aceitam judeus, aparentemente convictos ou à parte.

Interessante perceber que o suposto conforto da figura de Peck – o cristão disfarçado – logo é insuficiente para afagar o público. Vem outro problema: sua amada, interpretada por Dorothy McGuire, mostra algum incômodo com a representação do namorado jornalista, com o fato de ter de apresentá-lo como judeu à família grã-fina.

Outro ponto para a direção de Kazan: mesmo sem colocar a lama para fora por completo, fica o mal-estar desse meio de gente chique, civilizada, de liberais que se reúnem para falar da vida ou fazê-la. Quer dizer, liberais que imprimem um estilo em que se verbaliza tudo com alguma certeza, em que alguém sempre deixa surpresas para outro momento.

A vida sob certa interpretação poucas vezes foi tão oculta. Há sempre uma palavra para trocar, ou algo para dizer contra o que já se sabe. Peck, como Philip Schuyler Green, é um idealista que acaba de chegar a Nova York, metrópole de belas raposas que, às aparências, não mordem, mandam a conta pelo correio e soam quase sempre originais.

Ele, o jornalista que aprendeu a viver o que os outros vivem para contar suas histórias, terá de ser um judeu por algumas semanas e se misturar àquelas pessoas cheias de argumento. Em certos casos, como parece ser o de sua nova namorada, elas não têm mais saídas para se explicar, dobram-se, e precisam reconhecer suas origens.

A certa altura, Green reencontra um amigo judeu de longa data. O outro, diferente dele, judeu a vida toda, sabe como as coisas funcionam: o jogo de regras inquebráveis do protagonista não se mantém de pé para o parceiro, que aprendeu a adotar um filtro.

Peck soa um pouco artificial, ainda que não comprometa o resultado; o outro, na pele de John Garfield, imprime realidade, duro, mundano e, ao que parece, pouco chegado a rótulos. O que é ser um judeu? O segundo tem a resposta: é ser como qualquer outra pessoa.

(Gentleman’s Agreement, Elia Kazan, 1947)

Nota: ★★★☆☆

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