Faca no Coração, de Yann Gonzalez

O assassino é acompanhado por um pássaro cego. Os olhos do bicho são brancos. Segundo a lenda, o animal perdeu a visão ao seguir rumo ao sol para matar os maus espíritos, também a morte que ocupava o corpo de um homem. É o pássaro que faz o vilão viver.

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O criminoso veste uma máscara de couro. Ataca outros homens, homossexuais que participam de filmes pornográficos – nas ruas, boates e salas de cinema, no fim dos anos 70. O criminoso mescla o sexo à morte, ao passo que seu punhal, em Faca no Coração, esconde-se no vibrador. O golpe que serviria ao prazer serve à execução.

Sexo e morte o tempo todo. A cada respiro de prazer o diretor Yann Gonzalez remete o público ao medo: não à toa, encontra-se aqui um criminoso castrado, sem face, alguém que só cabe nesse universo como reprodução do pavor, a gozar com a morte. Em paralelo, também o tempo todo, o cinema em aspecto marginal, pequeno.

Gonzalez dá forma a um giallo, terror dos inferninhos em que sexo e sombras abundam, em que tudo culmina no cinema, arte movida ao voyeurismo. Perto do fim, um rapaz fica preso à tela em que corre a obra em que ele próprio atua, ao seu duplo que faz sexo com outros homens – e esquece de todos os outros, reais, ao lado, dispostos a gozar.

A montagem do filme dentro do filme, no início, é paralela ao primeiro assassinato. O corte da película é equivalente ao corte do corpo, às punhaladas, à medida que esse casamento apresenta o cinema como resposta a uma vida de proibições e esconderijos: a ficção é o reino das possibilidades, espaço das mais diversas realizações.

No filme, atores vestem suas próprias máscaras sem renunciar à verdadeira face. Podem fazer sexo de verdade, divertir-se de verdade, talvez ejacular à câmera para demonstrar o quanto a permissividade está incluída. Ao assassino resta a máscara real mas falsa, na qual um rapaz debate-se por não suportar o cinema e suas representações.

Há inúmeras camadas em Faca no Coração, abertamente exagerado, falso, sem medo de brincar com confusões entre realidade e ficção, sem compromisso com o típico filme de crime e investigação. À frente estão figuras apaixonadas, como se dos espaços de prazer absoluto saíssem reações diversas, a começar pelo amor.

A protagonista é a dona da produtora de filmes pornográficos – às vezes diretora, às vezes atriz em pequeno papel. Anne (Vanessa Paradis), de cabelos louros armados, estrutura corporal pequena e dura, é apaixonada por sua montadora, a bela Loïs (Kate Moran). Elas acabam de romper. Anne não aceita, procura a outra.

Ao descobrir que os atores de sua empresa estão sendo assassinados, ela faz o que se costuma associar a pessoas sem a mínima sensibilidade: transpõe as histórias dos crimes ao cinema, em versão pornô. É sua resposta – pelas vias do prazer sexual – à morte que pulsa para fora das câmeras. Outra vez, o paralelo entre sexo e morte.

O cinema é o catalisador de desejos ocultos, ao mesmo tempo a resposta à origem dos crimes, ao mesmo tempo a origem em si. Tudo emana de seu interior, no reino em que sobram estranhas participações afetivas. É a máquina que aciona prazeres ocultos, que possibilita ver a atração pela maldade ou, no mínimo, a excitação que ela produz.

Sem a máscara, o criminoso é também alguém sem rosto. Talvez seja ninguém, reprodução de um filme nunca revelado. Não por acaso, suas lembranças são vistas em película negativa, o lado oculto do próprio cinema – antes de ganhar cores, cortes, a forma da sétima arte em sua plenitude, espaço de emoções e múltiplas possibilidades.

O assassino, no fundo, quer matar o próprio cinema. Contra ele, Gonzalez expõe o público. Perto das poltronas em que todos se acomodam para assistir à nova obra, há uma sala escura, apenas alguns degraus acima, na qual o sexo real é permitido. Rapazes ocupam o local, tocam-se, veem-se livres. Filme e vida, próximos demais.

(Un couteau dans le coeur, Yann Gonzalez, 2018)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Um Homem Fiel, de Louis Garrel

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