Os Boas-Vidas, de Federico Fellini

A vontade de não fazer nada em algum momento dá lugar à melancolia. Os rapazes estão sempre a um passo de deixar a pequena cidade, ao modo provinciano, mas algo os puxa para trás. Nem quando um deles consegue ir embora a imagem dos outros escapa-lhe: no trem, ainda enxerga os demais, dormindo, enquanto a locomotiva afasta-se.

Curta nossa página no Facebook e siga nosso canal no YouTube

Esse desejo de nada fazer confunde-se com a vida em si. Ao assistir a Os Boas-Vidas, de Federico Fellini, alguém poderá se lembrar de Boudu Salvo das Águas, de Jean Renoir, outro sobre o espírito da vagabundagem. No caso do filme francês, a personagem-título é mais velha, disposta a desaparecer, afogar-se, não ser ninguém.

Nos dois, o desejo de ir embora toma grandes proporções: à ausência da coragem de se jogar nas águas do mar, os rapazes apenas olham. Um deles faz uma observação que soa verdadeira, cômica também: se alguém lhe desse algumas milhares de liras, atirava-se ali, apesar do frio que se traduz nos casacos, no tempo pouco agradável.

Um filme de Fellini sobre a amizade, sobre seu passado. O título original, I vitelloni, refere-se a um certo estilo de vida relacionado a jovens provincianos e ociosos que ainda dependem de suas famílias. Perambulam para qualquer canto, para lugar algum, cada um com sua característica, sem que consigam se desgrudar.

Ou sem que consigam até surgir algo maior, como uma gravidez ou aquele repentino ato de coragem que empurra ao trem, depois à cidade grande – sem nada, assistido pela criança que acorda de madrugada para trabalhar, que se despede com entusiasmo, e que fica por ali, na mesmíssima pequena cidade, a caminhar sobre a linha de ferro.

Todos os amigos têm seu peso. Moraldo (Franco Interlenghi) é o mais centrado. Fausto (Franco Fabrizi), mulherengo de rosto quadriculado e cabelo engomado, engravidou a irmã do primeiro e, à força, teve de se casar. No início, ainda tenta ir embora, como se tomado pelo impulso que insiste em negar – fugir de si mesmo, das raízes.

Para o mulherengo, casamento e trabalho representam clausura, a vida chata que em nada combina com os boas-vidas. Fellini, com roteiro co-escrito com Ennio Flaiano, dá a ele mais destaque, a transformação que surge de dentro, ou o estado de vida contínuo – mulheres, escapadas, festas – que o impede de ser outro senão o menino atiçado.

Os demais chamam a atenção, como Alberto (Alberto Sordi), infantilizado, vestido de mulher para a noite de carnaval – na qual todos exageram um pouco, mascarados, e correm para algum esconderijo do salão de festas da pequena cidade. Lançam confetes nos rostos dos outros – e das outras – para reproduzir um suposto instante mágico.

A completar o filme, há o intelectual Leopoldo (Leopoldo Trieste), atraído pela vizinha da janela ao lado e, à frente, em um dos diversos episódios de Os Boas-Vidas, hipnotizado pela presença de um ator que deu vida, no palco, à peça que ele escreveu. O provincianismo explode no rosto de Leopoldo, na atração que sente pela estrela de fora.

Todo o filme é sobre transformação, sobre passagem. Da tempestade da abertura, na mesma noite em que a miss da cidade revela-se grávida, à despedida pelos trilhos do trem – e, como citado, o afastamento dos sonhos daqueles que ficam, e dormem. 

O Fellini nostálgico de Abismo de um Sonho e Amarcord compõe um grande filme sobre um grupo, uma turma, rapazes que podem trair até as irmãs para manterem seus vínculos de amizade. Flerta com a comédia e, na aproximação aos problemas e à inevitável realidade, atinge a melancolia, certeza de que não se pode viver assim para sempre.

O cineasta italiano, trabalhando com os diretores de fotografia Carlo Carlini, Otello Martelli e Luciano Trasatti, aposta, em diferentes momentos, na profundidade de campo, no plano que muito revela, que permite colocar mais de uma personagem em ação, ou diferentes camadas em um mesmo espaço, para que ninguém escape ao foco.

A plástica casa-se ao conteúdo, à ideia do pequeno universo que talvez não seja tão minúsculo quanto os apressados possam julgar, de um vazio ou de um total preenchimento – a depender da ocasião – em que vivem os rapazes, de vários caminhos – entre prédios, vielas, cômodos apertados – que podem cruzar abraçados, enquanto cantam e dançam.

(I vitelloni, Federico Fellini, 1953)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Abismo de um Sonho, de Federico Fellini

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s