Um Homem Fiel, de Louis Garrel

Ao contrário das duas mulheres ao redor, Abel não demonstra malícia. Seu amor por uma delas é sincero, sua maneira de recusar a outra, nada intenso. O rapaz sempre tem alguma dificuldade para mudar seu universo – até perante os pedidos da mulher que ama. Seu traço maior de fidelidade está na relação com si próprio.

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Louis Garrel interpreta o protagonista, dirige e escreve o roteiro – o último com Jean-Claude Carrière. Seu rapaz de cabelos rebeldes, uma de suas marcas, desdenha das coisas do mundo para viver amores, estar com alguém, manter essas relações. Para ele – como para algumas das melhores personagens da nouvelle vague -, interessam os sentimentos.

Mais de uma vez descobre estar sozinho, com malas pesadas presas ao corpo, a mudar de casa ou apartamento. Caminha pelo frio sem deixar saber o que pensa, mesmo quando sua narração invade o filme. Mais tarde, as mulheres ao seu redor também falam com o espectador, provando que o filme não é dele, ou de um homem.

Abel ama Marianne (Laetitia Casta), não há dúvida. A companheira dá-lhe uma boa notícia seguida de outras ruins ainda nos primeiros instantes: ela está grávida, mas o filho não é dele. O pai da criança é seu melhor amigo, Paul, com quem em breve ela casar-se-á. Ao pequeno herói quieto dessa pequena grande história resta a porta de saída.

O tempo passa, os cabelos de Abel crescem. O amor por Marianne talvez não tenha desaparecido. Paul morre sem surgir em tela e, não demora, o protagonista vê-se outra vez perto da amada, no enterro do amigo, agora sob o olhar da terceira peça do jogo que não quer jogar: a bela Ève (Lily-Rose Depp), irmã do falecido.

Para a mais nova, a mais velha vive uma situação confortável: para ocupar o lugar do marido morto, encontrou rapidamente um substituto, ao passo que para ela, a amar Abel em sonhos por tantos anos, não resta nada senão a repetição de um passado que inclui observar o rapaz a alguma distância, imaginá-lo, “príncipe encantado” a quem não cabe tal papel.

Nas voltas dessa comédia, o amor idealizado não demora a ir embora: Ève descobre que, por perto, o amado carrega a simplicidade de qualquer um, ou de alguém que, agora, percebe não amar. O amor de Marianne, por sua vez, é de outra ordem, intenso, seguro, o que a leva a confessar a capacidade de amar dois homens ao mesmo tempo.

Sem surpresas, Paul e Abel conviveram em seu coração. Ela teve de escolher. Ao regressar ao que restou, o vivo, nem por isso o menos amado, trouxe um filho do outro relacionamento. A certa altura, confessa não saber quem é o pai, e talvez isso não seja o mais importante. Um Homem Fiel é sobre o ridículo inevitável, ponto em que os adultos, em seus lances sentimentais, em suas voltas, terminam como crianças.

Amar é aqui a característica central. Ou tentar amar. Ou amar uma imagem que não corresponde à pessoa viva, a do dia dia, em quatro paredes. Amar, sobretudo, como estado de espírito, o que faz essas figuras tão leves quanto as de Truffaut ou, sobretudo, as de Rohmer, nos Contos Morais ou nas Comédias e Provérbios.

Chama a atenção a criança intrusa (Joseph Engel), que vê tudo, ou quase, de fora, que brinca com os poderes da ficção – as histórias policiais de crime e investigação – para provocar o mundo dos mais velhos. Com seu celular, grava as conversas da mãe, Marianne, com Abel, e depois as entrega para Ève. Até a fuga para o cemitério, para o túmulo do pai, tenta ignorar a própria dor, sem compreender o que move os adultos que o circundam.

(L’homme fidèle, Louis Garrel, 2018)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Guerra Fria, de Pawel Pawlikowski

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