A Dança dos Vampiros, de Roman Polanski

O que parece bobo pode ser um capricho típico da época, os anos 60, uma inclinação à livre brincadeira que esbarra no sonho, imersão na pintura. É o que explica a invasão da Transilvânia por Roman Polanski em A Dança dos Vampiros – a tomada dessa pintura por uma criança, ainda que com um último instante adulto.

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Alguns poderão dizer – igualmente com razão – que nada mais é do que um palco de vampirismo indolor mesclado a uma viagem de drogas, possibilidade de se aproximar dos desejos daqueles que, em castelos distantes, entre neve espessa, dormem como mortos, dançam como vivos, sugam o sangue como animais à luz da lua.

Desejo moldado à comédia, convite à bobagem que, para Polanski, à época, fazia todo o sentido: filme para que ele vivesse uma figura pequena cujo pescoço, ao fim, é oferecido à mais bela donzela da região, nova vampira. Começa e termina sobre um trenó, rumo ao desconhecido, à sombra das feras. Primeiro os cães, depois a amada.

O cineasta interpreta Alfred, em viagem ao reino gelado dos vampiros na companhia do professor Abronsius (Jack MacGowran). O segundo pretende descobrir – e provar, à revelia da ciência – que existem vampiros. A brincadeira faz explodir estereótipos: Abronsius é o típico gênio, tipo Einstein, como que saído de uma tirinha de jornal.

Enquanto ele deixa-se tomar por acidentes e de nada parecer ter medo, seu escudeiro leva ao público a novos cômodos, a alguma emoção real (se é que existe aqui) nesse meio cômico em que todos, em algum momento, deverão ser mordidos pelos vilões. De certa forma, entre quedas e voltas em falso, Abronsius e Alfred são uma só pessoa.

O escudeiro desastrado encontra a bela moça na hospedaria em que passa a noite com o amigo professor. Ela, interpretada por Sharon Tate, é Sarah, sonho de qualquer vampiro, ou de qualquer homem ou mulher. A visão da deusa virgem em uma banheira de porcelana pela qual se vê o indicativo do defeito: uma mancha verde sobre o branco.

Seduz o rapaz, atrai-o como uma sereia, mas dispensa o canto. “Disseram que papai viria me ver em breve”, diz ela, entre a criança e a mulher adulta, de aparência desprotegida, com água e sabão até os ombros e, àqueles que sacaram o jogo, o esconderijo perfeito para o monstro.

No castelo em que a dupla passa a procurar por vampiros é possível ver os mortos levantarem dos túmulos, do alto, o que confirma a teoria do professor; na grande sala, colocam-se a dançar, em perfeita sincronia, enquanto as personagens centrais encarregam-se da comédia. A impressão é a de ver nascer um primo não tão distante do clipe musical Thriller.

Tudo se baseia na falsa ação, emaranhado de situações em que os monstros ocultam-se nos belos; nos quais os idiotas deixam-se ver em supostos heróis ainda não convertidos ao vampirismo. Não estranha se alguém enxergar ali o resumo dos dias de liberdade, delírio e transformação do fim dos anos 60: um reino de festa e luxo à moda antiga, à forma exótica, para viver para sempre enquanto o mundo gelado consome figuras aparentemente controladas, a serviço da ciência que nem tudo pode provar.

A ironia final dessa brincadeira está na vitória das feras, e que aos visitantes resta apenas a estrada a lugar algum, com o problema que deveriam estudar na bagagem. Polanski é engraçado enquanto se mantém assustado, a exemplo de algumas personagens de Mel Brooks. Mesmo um pouco hipnotizada, ainda enxerga o caos.

(Dance of the Vampires, Roman Polanski, 1967)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Baseado em Fatos Reais, de Roman Polanski

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