Bacurau, de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho

Em sua essência, Bacurau retoma o tema de Aquarius, filme anterior de Kleber Mendonça Filho: a relação das pessoas com o local em que vivem. Do apartamento de Clara ao museu da pequena cidade fora do mapa, a história corre, a memória faz-se viva para além da compreensão dos forasteiros – exploradores imobiliários ou atiradores.

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Os outros – armados, cínicos, chegados à modernidade – querem tomar essa História. Nesse caso, grafada com maiúscula, ainda que nem sempre perceptível enquanto se caminha lado a lado àquela gente tão próxima do arcaísmo quanto de uma tecnologia que soa, no mínimo, estranha, com telas em tablets, celulares e carros de som.

Bacurau, a cidade, foi – como tantas cidades brasileiras – esquecida antes de sua invasão pelos atiradores americanos. Tal invasão, a última, é retrato de sua entrega, tentativa de dar ao outro – o novo colonizador – alguma diversão, turismo, esporte que inclui matar pessoas. Melhor ainda se for em uma cidade de “bandidos”, fora do mapa.

Mas se ao americano a violência é assimilada como esporte, ou como maneira de se sentir poderoso, ao brasileiro dos rincões é parte de sua história – o que explica, no fim, a entrada ao museu. Em suas paredes, velhas armas, ou a falta delas, também as fotografias de uma sociedade fundada sob os sinais do conflito armado.

Ou seriam sinais de resistência? Em algum ponto, ambas não se despregam. Eis um filme sobre um país real, possível, não tão distante como aventa o aviso inicial. Não estranha se tudo estiver em curso, talvez de outra forma, no entreguismo de políticos dos mais altos cargos do país, de joelhos aos forasteiros endinheirados.

O filme tem início com o caminhão que transporta água. O líquido volta à cena quando vaza do caixão, durante o enterro de uma antiga moradora da cidade. Parte de Bacurau morre e renasce com aquela figura que o público não é levado a conhecer, cujo espírito fica por ali, para o tormento do invasor, a representar o próprio povoado.

Aquarius, de novo: detonar as estruturas físicas, um lugar, é detonar o próprio espírito de quem ali habita, a história que ajudou a construir. A água que vaza é a representação de um equilíbrio agora insustentável, desespero que transborda, de uma terra na qual a grande represa não deixa ver água alguma para transbordar, por cano algum.

Na estrada, pelo caminho a Bacurau, caixões são vistos à beira da pista, atropelados pelo caminhão que leva a água. À frente, um acidente envolve dois veículos, entre eles o que carrega os caixões. A morte aproxima-se sob um efeito oco, frágil, da estrutura de madeira que envolve o corpo. O negócio da morte mostra-se lucrativo.

O espectador aos poucos conhece os habitantes locais, também os algozes. A morte da velha moradora coincide com o desaparecimento de Bacurau do mapa. Não há coincidências. A morte da mulher pode levar também ao fim de um traço, uma marca, uma identidade que seus moradores agora reafirmam pegando em armas – de novo.

Para Mendonça Filho, que co-dirige ao lado de Juliano Dornelles, com roteiro de ambos, trata-se de um caldeirão de gente maldita, invasores e invadidos, choque entre duas civilizações incorporadas à pólvora, ao ódio. Não resta ninguém para se apegar. Nem poderia, a despeito da satisfação que a vingança libera no público.

À diversão dos atiradores americanos contrapõem-se os rituais que, aos olhos desavisados, soam cruéis. As cabeças cortadas poderiam ser ainda mais agressivas não fosse a calma diluição dos incidentes de Bacurau, cidade na qual – em misto de John Carpenter com o gênero faroeste – restam, àquela altura, apenas duas opções: matar ou morrer.

(Idem, Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, 2019)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Aquarius, de Kleber Mendonça Filho

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