Era Uma Vez em… Hollywood, de Quentin Tarantino

As lágrimas de Rick Dalton indicam alguém que ainda crê em si mesmo. O tipo de homem que chora ao receber o elogio de uma criança, quando a mesma diz que sua interpretação foi a melhor que viu em seus 8 anos de vida. Uma descarga de emoção necessária: o ator precisa acreditar que pode fazer algo, que está no jogo.

Curta nossa página no Facebook e siga nosso canal no YouTube

O tabuleiro é Hollywood. Dalton, interpretado por Leonardo DiCaprio, vê a decadência bater à porta: nos estúdios, será agora o vilão bigodudo, a ponte para o mocinho, para o novo rosto em ascensão; de algum figurão influente, em um bar, ainda no início, recebe a notícia de que a partida à Itália para trabalhar pode valer a pena.

Sua dor, em Era Uma Vez em… Hollywood, vem embalada por algo cômico. Ao se tratar de um Quentin Tarantino – aqui mais contido -, é possível que a brincadeira tenha algo sério: o ator famoso por poucos papéis, na terra do cinema, envelhece rápido, destoa da nova geração “paz e amor”, de um público que dá de ombros ao faroeste.

A novidade, por sinal, está a apenas alguns metros dele: na casa acima, comprada por um polaco em ascensão, diretor de O Bebê de Rosemary, vive Sharon Tate. Para Tarantino, a bela será apenas uma presença: para ela, Margot Robbie sequer precisa falar muito. Dela, o diretor capta o rosto de felicidade, no cinema, ao se ver em tela.

É, para Dalton, o oposto em tudo: o deslumbramento, o começo, a felicidade de se atravessar uma cidade ensolarada para se fazer reconhecida, mesmo quando precisa dizer quem é. À moça da bilheteria do cinema – quando cinemas pareciam palácios – ela diz ser Sharon Tate. A moça demora para crer. A afirmação dá lugar a uma foto, a uma pose.

Tão próximos, Dalton e Sharon podem, segundo Tarantino, tocar-se – mesmo quando isso é reservado ao instante final, a um enquadramento. Dois estilos de vida, ou duas formas de ver o curso das coisas e essa indústria feita de pérolas e enlatados, de gente festeira em suas grandes casas, em suas ruas particulares, com seus fiéis escudeiros.

Para Dalton, felizmente existe um Cliff Booth, um faz-tudo a quem a barriguinha não chega, jovem com cara de velho encarnado por Brad Pitt, símbolo da beleza hollywoodiana. Alguém que vive em um trailer distante da casa do patrão, dublê que serve também de motorista e, por que não?, conselheiro ao chefe apequenado.

Nessa Hollywood de extremos, de gente excêntrica para tempos coloridos, é o dublê, aquele que não deveria aparecer, o mais autêntico entre todos. Vive com algum senso moral, ainda que não se esforce para revelá-lo: quando dá carona a uma ninfeta, resiste aos seus flertes, mantém a braguilha fechada e chega a pedir o documento de identidade da moça.

Na companhia da mesma, vai ao rancho ocupado por jovens seguidores do maluco Charles Manson. O espaço, no passado, servia à filmagem de faroestes; agora, cedeu terreno aos jovens desmiolados e, segundo a ótica de Tarantino, contentes pela ante-sala da esbórnia, pela sujeira que assistem acumular, pelas horas à frente da tevê.

Os extremos, ali, mais que se expõem: Tarantino, nessa época de rompimento, em 1969, coaduna o que parecia impossível de se tocar. Os jovens rebeldes expulsam Booth do local, como se este fosse o invasor, não convidado àquela farra resumida a pouco ou nada, à espera das ordens do superior, o líder da seita, Manson.

O resultado não poderia ser pior: o antro de liberdade revela-se um espaço de aprisionamento, assistido aos olhos curiosos da controlada – mas violenta, se preciso – personagem de Pitt. Nessa história sobre Hollywood, a farra termina justamente no ponto em que começa o aparente excesso de liberdade, momento em que os mais jovens tomam a frente, invadem o rancho e dominam o espaço em que reinavam os faroestes.

A morte de Sharon Tate, dizem, teria mudado tudo: marca o fim de um sonho, o fim da festa. Para Tarantino, o “era uma vez” possibilita pensar no caminho alternativo: a salvação dessa terra de sonhos é dada por um dublê e um ator em decadência. Ainda que tudo termine em banho de sangue, como se espera do cineasta, o espectador tem motivos para acreditar que a vida seria melhor se fosse como no cinema.

Booth é o meio-termo entre Dalton e Tate, talvez o verdadeiro ser inexistente em questão: enquanto o chefe com complexo de inferioridade enxerga-se para além da tela e a nova atriz só consegue ver o que há para dentro dela, o dublê segue vivendo, indiferente àquelas estruturas de sonho conhecidas como estúdios de cinema, alguém à sombra de um drive-in, sozinho, com seu cão. Estranhamente normal em um filme de Tarantino.

(Once Upon a Time … in Hollywood, Quentin Tarantino, 2019)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Era uma vez… um balconista de videolocadora

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s