A Grande Dama do Cinema, de Juan José Campanella

A farsa desenha-se com a descida da antiga estrela de cinema pela escadaria, os lenços pelo corpo, os movimentos calculados, o Oscar que ganhou em décadas passadas, à sua espera, ao fim do curto trajeto. Os coadjuvantes ali postados alimentam a mentira. Ela aceita o ritual, vive para ele, e acredita que as pessoas ainda recordam sua obra.

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A referência clara é Crepúsculo dos Deuses, no qual a imortal Norma Desmond atira no amante, deixa-o boiando na piscina e retorna para seu sarcófago. A polícia chega. O crime atrai a multidão, os urubus da imprensa. Ela prepara-se então para seu retorno; desce as mesmas escadas, é filmada e afirma estar pronta para seu close-up.

O diretor Juan José Campanella, ao contrário de Billy Wilder, aposta na comédia macabra. A crença de que se vive a vida de sempre, a das estrelas e seus seguidores, pode ser trágica, mas, em A Grande Dama do Cinema, nada supera a constatação de que o mundo moderno, para fora da velha mansão da atriz, é ainda pior.

Neste caso, melhor ficar ali, no palácio convertido em galinheiro, cercado por ratos e gambás, em defesa, do que tentar o retorno triunfante, ilusório, para jovens que não sabem quem é a atriz Mara Ordaz (Graciela Borges), menos ainda quem é o ator Pedro (Luis Brandoni), o diretor Norberto (Oscar Martínez) e o roteirista Martín (Marcos Mundstock).

Os três homens e a estrela vivem na mansão. Ao que parece, não são incomodados até o dia em que aporta ali um casal de corretores de imóveis, jovens e belos, interpretado por Clara Lago e Nicolás Francella. Para retirar os moradores e comprar a propriedade, os vilões convencem a estrela de que o mundo ainda a conhece, de que é famosa.

A bordo de seu carro, a atriz é levada a um restaurante, é reconhecida. O teatro é maior que o imaginado. Espertos, Norberto e Martín percebem o golpe. O filme não esconde a intenção dos visitantes e prefere surpreender com a recepção, mistérios que o casarão esconde em suas salas, nas partidas de sinuca, nas estátuas.

Novo e velho mundo confrontam-se. Os jovens não combinam com a mansão. Os mais velhos querem ficar ali, enterrados, a viver da interpretação que garanta paz: podem, se necessário, manter-se ao pé da escadaria para aplaudir a estrela com seu Oscar, feliz pelas reverências, figura sagrada, estátua em vida.

Norberto circula com o rifle, pronto para matar gambás invasores; Martín é o roteirista dono de frases cínicas, a esfolar o oponente com cuidado; para o pacato Pedro, marido de Mara, cabe apenas viver uma personagem, única de toda uma vida: o homem apaixonado, companheiro fiel. Ao longo da história, ele descobre que não é ator, que sua mulher talvez não o ame e, para sobreviver, precisa se reinventar e ser outro. Ou seja, um ator.

No fundo, todos compõem tipos conhecidos em A Grande Dama do Cinema. O casulo em que se meteram depende desse sistema perverso em que a mentira abunda e a verdade só dá as caras quando é preciso recorrer à assumida interpretação, à peça que montam na última hora para vencer os oponentes de roupas e carros caros.

Difícil vencer os outros, os jovens, fora daquele velho palácio. Norberto é encurralado ao ir ao covil inimigo, prédio espelhado em que a bela corretora (Lago) deixa ver suas armas para tirá-lo de cena e comprar a propriedade. Ataca seu ponto fraco: tenta seduzi-lo, oferece o próprio corpo. Em outro reino, frio e impessoal, não é mais o cineasta quem dá as cartas. Agora é a vez dos coadjuvantes, capazes de tudo para ganhar protagonismo nessa indústria movida à especulação imobiliária.

(El Cuento de las Comadrejas, Juan José Campanella, 2019)

Nota: ★★★☆☆

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