Vivendo no Limite, de Martin Scorsese

A noite ocupa a maior parte de Vivendo no Limite, de Martin Scorsese. Há pouco respiro, pouca luz do dia, antes de o espectador retornar à escuridão, ao lado do socorrista Frank Pierce (Nicolas Cage) e seus colegas de trabalho. Pela selva quadrada e úmida, cortada por luzes refletidas no vidro da ambulância, eles salvam vidas.

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Ou deveriam salvar. Nem sempre a ação sai como se espera: para cada lance perdido, volta sem encerramento, frase fraquejada, o mesmo Pierce oferece à câmera o semblante derrotado que poucos, àquela época, poderiam conferir tão bem quanto Cage. Acredita ser um instrumento de Deus, talvez agora no papel de Diabo.

Ele próprio confessa em narrações. Uma delas, a mais longa, é feita durante o dia, antes das sombras levantarem-se sobre os prédios de Nova York. “Salvar a vida de alguém é como se apaixonar, o melhor remédio do mundo”, começa ele, para terminar no campo oposto: “O deus do fogo do inferno não é um papel desejado por ninguém.”

Os dias que correm são de inferno. O homem não se acalma, vendo-se preso ao papel de zumbi: não dorme, assiste ao chacoalhar de seu espaço de trabalho, às luzes alucinantes, às repetições daqueles que – a começar pelo fantasma de uma menina – cruzam seu caminho. Ao voltar aos mesmos pontos, ou às mesmas pessoas, evidencia sua loucura.

Difícil não pensar em Taxi Driver, marco do cinema americano dos anos 1970, sobre um taxista em noites violentas, em Nova York, imbuído – como o socorrista do filme posterior – pela ideia de que pode fazer algo para salvar alguém. À diferença do próximo, ele está disposto a morrer como um velho caubói, e chega a ser utópico.

Revela-se estreito, o que Robert De Niro salienta em mergulho à espiral de insanidade, enquanto se deteriora: é alguém que não sabe lidar com as mulheres, que soa juvenil enquanto tenta se comunicar com os colegas de café, que toma uma menina jovem – prostituta – como alvo da cruzada pela salvação daquele cenário apodrecido.

A adolescente que persegue Pierce no decorrer de Vivendo no Limite é um fantasma, alguém que não conseguiu salvar, a certa altura em todos os cantos, como se dela não pudesse fugir. Em viagens noite adentro, o protagonista não tentará, como o taxista de De Niro, mudar tudo; tem consequência da derrota, de sua desorganização.

Scorsese, com roteiro de Paul Schrader, da obra de Joe Connelly, aposta na velocidade. As poucas viagens, em poucas noites, soam intermináveis, o que só aumenta o mal-estar – da rua ao hospital, do hospital à rua. Entre os resgatados, Pierce depara-se com um homem cujo coração insiste em continuar batendo apesar de sua renúncia àquele plano material, àqueles médicos munidos de desfibriladores.

A filha do homem torna-se o ponto de fuga do protagonista. Aos poucos, Mary (Patricia Arquette) deixa enxergar seu passado, a moça incorreta que foi um dia – o que, para Pierce, na busca pelo descanso, não fará diferença. Ele continuará a segui-la.

O herói dessa história precisa entender o que é a morte e que, no encalço desta, “anjos” como ele nem sempre provêm a vida. A morte nem sempre acompanha o coração parado, a vida nem sempre ocupa todos os seres envolvidos no salvamento – dos socorristas aos médicos do hospital. Alguns mortos-vivos ainda caminham pela rua.

Os pontos de luz explodem, o brilho sobre a roupa branca dos socorristas é intenso mesmo com tanta escuridão. Toda noite é como a última, a chegada para a demissão que nunca ocorre após contínuos atrasos. Pierce está condenado a perseguir o papel de anjo ao mesmo tempo que a maior parte de seus pacientes morre.

Seu descanso tardio – e todo alívio que o acompanha, com a luz sobre o corpo, na companhia de Mary – remete à famosa cena na qual a mulher doente é acolhida por sua criada em Gritos e Sussurros, de Bergman. Scorsese compõem assim um quadro de alívio, novo dia sem sol, momento em que o protagonista compreende a morte.

(Bringing Out the Dead, Martin Scorsese, 1999)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Cinco momentos inesquecíveis de Taxi Driver

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