Sexy e Marginal, de Martin Scorsese

As personagens divertem-se. Não se arrependem de seus assassinatos, não cansam de gargalhar a cada ricaço desfalcado, a cada locomotiva invadida, a cada sensação de justiça feita nos dias da Grande Depressão. Contra elas está o velho poderoso encarnado por John Carradine, justamente o pai de David Carradine, também em cena.

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A oposição entre eles – pai e filho, velha e nova Hollywood, empresário e sindicalista – pode parecer apenas uma brincadeira, ou jogo do acaso. Mais provável, é a maneira de Martin Scorsese, com Sexy e Marginal, apontar à mudança das peças no cinema barulhento que, à época, ganhou força em seu país. Ali, cometer crimes era divertido.

O que não leva a reprovação de quem analisa. Ao contrário, mostra o quanto esse cinema carrega liberdade, clima descompromissado que Scorsese, em Conversas com Scorsese, de Richard Schickel, confessa ter retirado de Caminho Áspero, “um filme subestimado de Ford”. A leveza remete também aos pequenos marginais da nouvelle vague.

À frente, uma Barbara Hershey moleca, livre, a dar o tom da juventude que se depara com a violência, menina que se debruça ao jogo de dados e descobre que talvez não seja tão difícil ganhar dinheiro e sobreviver. Sua aventura sugere acidente, seu erotismo toma o espectador de surpresa. Logo despe-se com facilidade, caminha nua.

Ela, Boxcar Bertha, dá nome à obra (o título original), que vai além dos crimes e do bando ao qual é incluída – ao lado de um sindicalista, um negro e um judeu. Após ter o pai morto em acidente de avião e perder as raízes, resta-lhe o caminho de muitos: viajar, de trem em trem, em busca de algo, terra ou alguém para agarrar.

Sinal do progresso, o trem serve aos marginais, aos sindicalistas – ora ou outra, ou sempre, davam-lhe um teto provisório, noite de sono interrompida pela batida policial pela manhã, ao aportarem na estação de alguma cidade grande. Em sua primeira viagem, depois de aprender a subir em um trem em movimento, Bertha é rapidamente convencida por Big Bill Shelly (David Carradine) a se entregar ao sexo.

Da noite para o dia surge outra mulher, disposta agora a revelar partes do corpo sem que pareça apenas fruto de uma coceira na perna ou a brincadeira da menina de vestido e sem experiência. Bertha, à sua maneira, continua a se divertir como sempre, sem que compreenda as complicações de um universo servido à miséria.

Não chega a ser um filme de gângster. Suas personagens não são levadas a sério. A diversão promovida por Scorsese, com produção de Roger Corman, faz-se como balada de gente perdida, a qualquer lugar, a fracassar na tentativa de mudar algo: ao se ver preso e metido em assaltos, o sindicalista não pode levar à frente sua luta pela causa operária.

O que resta a Big Bill é roubar dos ricos e dar aos trabalhadores ou ao sindicato de sua categoria. A maneira como lida com Bertha torna-o às vezes bronco, sempre malicioso, à maneira das personagens construídas ao sabor do instante. Ao fim, a tragédia que protagoniza é o choque da moça, tardio, com o mundo adulto que aparentava recusar.

Scorsese chega ao sinal religioso, à morte destinada ao bandido-revolucionário, preso ao gigante metálico que ao mesmo tempo serve às escapadas da quadrilha e para enriquecer os cofres do patrão. Banho de sangue, como em Bonnie e Clyde e Renegados Até a Última Rajada, ambos da Nova Hollywood, ambos ambientados na Grande Depressão.

Cheio de violência, Sexy e Marginal mostra que à menina sem pai, pela estrada, sobram poucas opções: fazer parte de um bando criminoso ou se tornar prostituta. Para ser livre como se apresenta, no contexto que ocupa, era uma coisa ou outra. Passada a aventura, o espectador fica com ela, com seu belo sorriso aberto, sua insistente imaturidade.

(Boxcar Bertha, Martin Scorsese, 1972)

Nota: ★★★☆☆

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