Como Era Verde Meu Vale, de John Ford

O que resta do vale verde é a lembrança. O que fica, no pouco que se agarra com quem recorda, o narrador, resume-se à terra escura, aos pedaços de pedra pelo caminho. Um vale morto. O que fica não é nada. John Ford, em Como Era Verde Meu Vale, sequer revelará o rosto adulto do narrador, apenas mãos e pertences.

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Para a surpresa dos pais, esse homem, quando menino, resolveu ficar por ali, tornar-se mineiro como outros de sua linhagem. Poderia ter escolhido medicina ou outra profissão para resgatá-lo dos buracos, ao risco constante de desabamento. Preferiu ficar: escolheu o previsível, também o que lhe era tão atraente: o vale.

Talvez não imaginasse que tudo poderia chegar ao fim. Pai, mãe e irmãos povoam suas memórias. Nesses retornos, até o pior dos momentos acompanha beleza, com luzes que rebatem nos corpos sujos, a fuligem despejada nessa gente para fazê-la soar viva. Dá certo: a composição de Ford trata de humanos, figuras naturais.

Quem lembra conheceu os atores dessa história como ninguém; com Ford, o pai será o camarada para qualquer conversa, justo, aquele que guarda as moedinhas da família para, ora ou outra, distribuí-las igualmente aos filhos que saem para fazer algo, matar o tempo, e que depois estarão lado a lado, em rua íngreme, para retornar à mina.

Interpretado por Donald Crisp, o pai é o centro, a razão da família que, em determinado momento, vê-se rompida pelo calor revolucionário dos filhos: quando o dono da mina resolve reduzir salários, os mais jovens ameaçam se unir em sindicato e fazer greve. O pai opõe-se. Os filhos tornam-se “comunistas”, desordeiros que não deveriam se rebelar contra a força local, de um sistema há muito instituído: a empresa.

O jogo é antigo. Dentro da visão sonhadora de Ford, ainda cabe, tem peso: os jovens querem estourar as coisas, fazer barulho, brigar por direitos; os mais velhos recusam esse rompimento, preferindo o pouco ao nada. Velha história revista pelos olhos do menino que terminará como outros por ali, o mineiro sujo da cabeça aos pés.

Nem combina muito com seus traços: como Huw, Roddy McDowall arrasta o carrinho de metal com pedras por corredores escuros, briga com outros meninos mineiros, tenta ser como os outros – como todos, é verdade – sem perceber que, à luz da recordação, não é como ninguém. Soa angelical, inocente, estágio final para um tempo feliz.

Essa é também a história de seu crescimento, a lembrança da criança que descobre o amor pela mulher mais velha, que vê a mãe agitar-se entre mineiros, aos gritos, e ainda descobre que existem casamentos sem amor – como ocorre à irmã (Maureen O’Hara), que ama o pastor da cidade (Walter Pidgeon) e termina unida ao filho do dono da empresa.

Pessoas de fora, como o professor de Huw, olham os mineiros como seres inferiores. Ford, a partir do livro de Richard Llewellyn, alimenta a ideia de pureza distante, de memória perdida, de um povo à parte – ou quase isso. Memória que remonta livremente ao falso, que se casa a essa composição meticulosa, rumo ao universal e ao particular.

Contra a total ilusão ou o golpe da memória, a direção de Ford expõe a carne das pessoas do vale. São palpáveis. Mesmo McDowall será contido, nunca uma criança deslumbrada. Está atenta aos movimentos desse paraíso, palco da infância, em direção à vida adulta. O belo é atingido pela sujeira do alto, da mina, mais tarde a cobrir tudo.

(How Green Was My Valley, John Ford, 1941)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
A Mocidade de Lincoln, de John Ford

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