Amanda, de Mikhaël Hers

O tempo é prolongado enquanto o rapaz percorre, de bicicleta, ruas e avenidas de Paris. Essa aparente paralisação, permanência na personagem, serve de anúncio a algo que vem em seguida: o susto, o choque, o que não se traduz em palavras e se reduz à expressão. É quando ele, David, depara-se com vítimas de um ataque terrorista, machucadas ou mortas.

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A arquitetura de tal sequência é interessante: evita-se o que há de brutal – mostrar o ataque – para deixar a imagem àquele que fica, ou ficará, aquele que se mantém vivo, e vive, contra a ação terrorista sem explicação racional. O tempo estendido, pouco comum ao cinema narrativo convencional, é aqui uma amostra de vida.

O vínculo com o que há de pior no mundo atual faz com que David e outras personagens percam o chão ao longo de Amanda, de Mikhaël Hers. Entre os corpos estirados no parque, cravados por balas, está o da irmã do protagonista. Para ele, tudo muda a partir de então: a cidade não é mais a mesma, a família não é mais a mesma.

O título refere-se à sobrinha de David, interpretada por Isaure Multrier. Filha da vítima, a criança demora para entender o que ocorreu, o que compõe esse mundo violento que agora dá as caras: de um dia para outro, ela vê-se guiada ao apartamento do tio jovem, às vezes deixada com outra tia, ao passo que expõe desafios aos demais.

O filme é sobre David, sobre perda, sobre como lidar com a criança que fica. A tragédia salta do espaço público – o parque preenchido por corpos, o hospital em que se busca informações, a possível história contada para uma jornalista – ao privado, ao qual apenas alguns têm acesso. O diretor resiste ao peso das lágrimas. A leveza é certeira.

A luta para seguir em frente é representada pelo trabalho do protagonista. Sobre árvores, ele corta os galhos que ocupam a paisagem, precisam ser retirados. A vida sob o fantasma da perda inexplicável, do ato de pura covardia, exige que se siga em frente, que se viva: a árvore perde galhos, partes, sem que se deixe morrer.

E o fato de David ser ateu ajuda a entender sua resposta às dores que lhe abatem, também a maneira de encarar esse mundo de árvores sem galhos: vencer depende de força, perseverança, e não há explicação para tudo. Os religiosos podem entender o massacre como vontade divina; os fanáticos, como forma de expurgar pecadores. Ao ateu fica a missão de olhar para a frente: cuidar de quem vive.

Amanda, por isso, entre lágrimas e muita graça, é o que fica para o rapaz, o que vale a pena. É, ao ateu, seu “milagre”, justificativa verdadeira, contra quem prefere ver destino no que mais parece acaso. O próprio David poderia ter morrido caso chegasse no parque minutos antes, o que torna o tempo do trajeto ainda mais importante.

Para interpretá-lo, escala-se Vincent Lacoste, nem homem nem menino, alguém que tampouco força uma transformação. Pode ser o mesmo do início ao fim, ao passo que assume Amanda, aceita conhecer a mãe que nunca conheceu (Greta Scacchi) e, sem qualquer sinal de aviso, desaba em lágrimas – o que o torna mais palpável.

Nem pai ele será. A configuração familiar é outra: para a menina que tem de cuidar, será um tio, um companheiro, alguém que cria coragem, a certa altura, para deitar com ela e lhe fazer companhia pela noite, após uma súbita crise de choro da mesma. Por que a criança chora? Pesadelo, solidão ou medo da morte? Saudade da mãe?

Enquanto assiste a um torneio de tênis, Amanda relembra uma expressão ligada a Elvis Presley (“Elvis has left the building”), dita e explicada por sua mãe. O tio, é certo, não entenderá essa conexão com o passado. Até aquele momento, a menina acreditava que o jogo estava perdido para seu tenista favorito. Seu tutor argumenta o oposto: o jogo sempre dá possibilidades a quem está disposto a lutar.

(Idem, Mikhaël Hers, 2018)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
A Trama, de Laurent Cantet

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