Um Sonho Sem Limites, de Gus Van Sant

Os pequenos pontos da televisão, diz a protagonista, obrigam as pessoas a tomarem alguma distância. Com o rosto colado à tela, nada se vê; bastam alguns centímetros para que os brilhos deem lugar à imagem, à forma, ao espetáculo da caixa eletrônica. A protagonista – bela e falsa, boneca dos sonhos – é obcecada pela ideia de fazer sucesso.

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Ela compreende a televisão. Nasceu da mesma, nessa sociedade em que existir significa estar na tela, para a tela, um animal adestrado – com palavras decoradas – para dar a notícia, ou a previsão do tempo, ou, como Norma Desmond, para protagonizar o assassinato do qual sai como figura mítica, inabalável, atrás de seu close-up – ao que parece, o último.

A protagonista de Um Sonho Sem Limites, Suzanne Stone (Nicole Kidman), descende da Diana Christensen de Rede de Intrigas, e emprestará algo à Amy Dunne de Garota Exemplar. Essas mulheres não têm uma vida normal, não vivem como qualquer um. São calculistas, querem atenção, aprenderam a mudar de vida ao estalar de dedos.

Cria da tevê, tem sua filosofia própria, pobre, ao gosto da sociedade do espetáculo, o que a faz se moldar à lente. Não chega nem a ser uma vilã por completo: para Gus Van Sant, com roteiro de Buck Henry, do livro de Joyce Maynard, é um resultado, projeto desses tempos loucos de pessoas obcecadas por parcos minutos de fama.

“Você não é ninguém na América se não está na televisão. Na televisão, nós aprendemos sobre quem realmente somos, por que qual é o ponto de fazer algo que vale a pena se ninguém está assistindo. E se as pessoas estão assistindo, isso torna você uma pessoa melhor.” As palavras são de Suzanne, a certa altura, de olho na lente.

A estrutura narrativa de Van Sant inclui a própria tevê. As personagens servem às suas engrenagens sem perceber: a televisão, diz ele, de tão perversa, consome o que destrói, e talvez não se faça perceber. Suzanne é eleita, é expelida como filha desse meio de imagens e números, pontos eletrônicos, crimes chocantes.

Não apenas ela. Todos os outros – sobreviventes, cúmplices ou vítimas – contam suas histórias à lente da televisão. Tornam-se documentários, programas de variedades, fitas curtas sobre o crime da semana que abalou a sociedade e, para muitos, logo esquecido, posto à máquina de moer histórias, a toda velocidade. Suzanne é filha da representação, do molde, da necessária escalada ao sucesso sendo alguém e ninguém ao mesmo tempo, aqui uma dualidade possível.

Ao perceber o risco de se tornar outra, uma mulher de família, para ter filhos e terminar ajudando o marido (Matt Dillon) em seu restaurante, a protagonista encontra uma maneira de matá-lo. Envolve-se com três adolescentes que participam do documentário que realiza, com o qual pretende compreender o mundo jovem.

A mulher logo estará entre eles, rouba-os facilmente, promete amor, fama, e mais: entrega-se sexualmente ao mais frágil entre os três, o introspectivo Jimmy (Joaquin Phoenix). A quem, por sinal, restará a tarefa de matar o marido. Desde os primeiros minutos, com os pontos pretos da tinta dos jornais impressos, semelhantes aos pontos eletrônicos da televisão, desenha-se, em necessária distância, essa tragicomédia.

A essa ideia de “tomar distância” para enxergar segue o golpe irônico do roteiro: não se compreenderá Suzanne até o fim. A televisão acompanha superficialidades. Só se vê com distância, sem se aprofundar, clama a loura perfeitinha, fatal, burra.

Sob a placa de gelo, em um rio, ela continuará como sempre foi, conservada, à imagem impecável que a telinha precisa. No fundo, entre sexo e morte, Um Sonho Sem Limites é sobre uma sociedade feita às aparências, de beleza preservada, mas morta. Sociedade “amigável” à qual cada flash de luz é uma facada, ou a janela ao espetáculo.

(To Die For, Gus Van Sant, 1995)

Nota: ★★★★☆

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