A Hora do Amor, de Ingmar Bergman

A casa da família, ao contrário da casa do amante, tem bastante luz, é um local agradável. Levada pelas emoções, a protagonista vai ao outro lado, vê-se atraída pelas sombras, por seu habitante inconstante, o arqueólogo americano atormentado pelo passado, David (Elliott Gould), cujas explosões de fúria a pegam de surpresa.

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A barreira entre e sobre essas personagens é o primeiro problema de A Hora de Amor, que, em momentos, não parece um filme de Ingmar Bergman. Em outros trabalhos, Bergman buscou o horror e o desejo nas faces. Traduziu o interior por esse efeito de aproximação, alicerce de um cinema com assinatura clara.

Nessa incursão pelo adultério, o realizador sueco clama para que suas criações sejam compreendidas a despeito da frieza. À tela, resta um casal um pouco deslocado, sem química, ainda que a gigante Bibi Andersson, como Karin, convença como a mulher balançada pelo novo, que foge do conforto de sua família aparentemente perfeita.

Ela conheceu o amante no dia da morte de sua mãe. Chegou ao hospital quando a mesma já se encontrava sem vida, ainda à cama, face gelada, ao som – que chega à filha impassível – da vida do lado de fora. A vida segue, o cotidiano comum – o do barulho das pessoas, do ônibus que chega ao seu ponto, de todo o resto – é implacável.

Aos olhos de Karin, tudo continuará como sempre foi. Não é a morte que a assusta, mas o que fica, a normalidade, a rotina implacável para fora do quarto de hospital. Bergman inclina-se aos efeitos do exterior e, ao que parece, deixa-se levar por estes a ponto de esquecer o oposto: em certa medida, suas figuras insinuam-se ocas.

A protagonista tenta reconhecer, no corpo frio, a mãe que acaba de perder. A aliança da mulher morta é dada depois para a filha e, em seguida, surge o futuro amante, alguém para perseguí-la, atormentá-la, de quem a própria não conseguirá se despregar: o que há de mau naquele homem que chega para acabar com seu casamento é também excitante.

Se há horror, este atravessa a seco, a rebater a falta de palavras, a digladiar com o frio, ou a se lançar ao fundo de igrejas escuras de imagens então intocadas, enterradas, de volta à luz para serem corroídas por insetos, do interior para fora. É o problema da protagonista: trocam-se os insetos pela paixão pelo outro, em certa medida um estranho.

O sentimento de perda – e de morte, por não se fazer nada senão ser a mesma – é agora promovido por uma vida em claridade, de branco e amarelo, marido e filhos angelicais. De olho na mãe morta, Karin emudece, logo chora em outra sala. David será seu tormento, maneira para fugir da vida quadrada, não para agarrar a felicidade.

O conflito não está no adultério, tratado de forma natural. Está nos desvios tomados pelas personagens, maneira como tentam se esconder e, pelas escapadas, acreditam aplacar a dor. Em seu cotidiano de frutos esparramados pelo chão, colhidos com desesperança – como em determinada sequência -, Karin não tem caminho.

David, revelado depois um suicida, volta-se às figuras mortas de seu trabalho, ossos e imagens das velhas capelas, à arte sacra entre a escuridão. Os sons do mundo lá fora continuam a perseguir os amantes. Do apartamento de David é possível ouvir o som de uma serra, a imposição da fissura que não se vê.

A narrativa é ousada, o tempo parece confuso. Há momentos em que o instante passado retorna entre a sequência seguinte. O rasgo fornece mais que a ideia de desencontro físico: os amantes em questão vivem em um tempo ceifado, como se tudo não passasse de lembranças confusas, peças desencaixadas. Sem explicar, eles insistem em novos encontros, incapazes de assumir a toxicidade da relação. Dão vez a um filme sem fim.

(Beröringen, Ingmar Bergman, 1971)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Bibi Andersson (1935–2019)

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