Meu Primo Vinny, de Jonathan Lynn

Tribunais são ótimos espaços para a comédia. O cinema americano soube como aproveitá-los bem, às vezes perto do absurdo, como no clássico Diabo a Quatro, dos Irmãos Marx, ou mais tarde no musical Chicago, de 2002.

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É o espaço em que a farsa serve à perfeição: ali, por obrigação, todos precisam manter a pompa, o terno impecável, a forma cordial, jurídica, o ritual. Todos são moldados à interpretação, o que torna o casal de Meu Primo Vinny um contraste. O protagonista e sua noiva, vividos pelos faladores Joe Pesci e Marisa Tomei, preferem o improviso. São os exagerados da cidade grande, a confrontar sulistas de um pequeno município.

Vinny (Pesci), advogado que nunca salvou alguém da cadeira-elétrica, segue a essa cidade para defender o primo Bill (Ralph Macchio), acusado de matar o balconista na companhia do amigo Stan (Mitchell Whitfield). O espectador sabe que ambos são inocentes, e o filme prefere Vinny.

A comédia possibilita exagero e inversões: apesar da bota com ponta de ferro, lustrada, o advogado não é o típico caipira. Não pertence a esse local pequeno, atolado no barro, no qual alguns sons insistem em tirá-lo da cama.

Em cena, o confronto entre dois países em um, a falsa moralidade dos juízes que tentam desmascarar homens que se assumem falsos (não os que fazem o contrário), o esporte preferido de parte dos americanos: prender pessoas. Não basta uma vez. Vinny será preso pelo menos três, levado à cadeia por não se vestir adequadamente para um tribunal, por dizer palavras excluídas do vocabulário do juiz bonachão.

É na prisão, depois, que consegue ter sua tranquila noite de sono – mesmo ao som de uma possível rebelião. É nesse som que ele encontra, talvez, a América que conhece bem, à qual está adaptado. Ele dorme. E é na gordurosa culinária sulista que agarra a prova de inocência dos jovens acusados de homicídio.

Tomei ganhou um inesperado Oscar interpretando a namorada de Vinny, Mona Lisa Vito, coadjuvante que rouba a cena, dotada de timing perfeito para interagir com o expressivo Pesci. As roupas extravagantes, a maneira de se exibir e a forma de resolver problemas sem esforço lhe conferem um toque especial.

Mesmo com momentos artificiais, o filme de Jonathan Lynn, a começar por Tomei, faz boa comédia sem esforço. Pequenas partes dizem muito sobre o que está em jogo: a necessidade de encontrar culpados a todo custo, de “fritar” alguém, como pede uma aparente senhora pacata, a certa altura, no tribunal. O real vem envelopado pelo absurdo, à frente de uma nação que, ao fundo, pulsa.

(My Cousin Vinny, Jonathan Lynn, 1992)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
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