O mágico Georges Méliès

A despeito da trucagem cinematográfica, das colagens que uma nova arte então proporcionava, no fim do século 19, o mágico não abandona o palco. Está postado sempre ali, muitas vezes em único cenário, a figurar como ator, a falar – visualmente – de si mesmo enquanto veste-se de Diabo, enquanto multiplica cabeças.

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O cinema, ao mágico, é o veículo perfeito: a técnica possibilita o truque, o intervalo desaparece, a continuidade é facilitada. Saltos, por sinal, são ocultados. No mesmo palco, a alguma distância segura da câmera, o suficiente para ver o corpo todo, Georges Méliès revela-se o pai do cinema espetáculo, para além do registro.

A história é conhecida: homem dos palcos, ele assistiu a uma das primeiras exibições dos filmes curtos dos Irmãos Lumière. Encantou-se com o cinematógrafo, ainda antes deste se transformar em cinema e carregar uma linguagem (depois) estabelecida. Méliès não foi o fundador de tal linguagem sofisticada, ainda que tenha experimentado a importância da montagem – e a aplicado – a favor da ilusão.

Com os Lumière, o cinema encaminha-se ao real, ao documentário; com Méliès, segue trajetória oposta: não seria apenas um veículo de registro ou objeto científico, mas estaria – como rodas-gigantes, trapezistas, palhaços – a serviço do espetáculo de circo. Por outro lado, Méliès não negaria sua posição no teatro, como reflexo do templo.

O mágico adora castelos e demônios. Os ambientes de terror estão todos ali, entre bruxaria, fogo, cabeças expressivas. Em Le Chaudron Infernal, de 1903, um Diabo verde lança mulheres à fogueira. Em O Desfile Infernal, do mesmo ano, outra vez surge a figura mefistofélica, vivida pelo próprio Méliès.

Tudo converge ao misticismo: Barba-Azul, de 1901, conta a famosa história do homem que se casa pela oitava vez e, em cômodo proibido para a nova companheira, guarda os cadáveres das anteriores. Os espíritos das outras mais tarde se rebelam. A nova mulher tem pesadelos. Os espectros retornam para atacar o vilão e, como mágica, voltam à vida.

Neste caso a estrutura é robusta: o diretor conta com vários atores, mais de um cenário, figurinos aos montes, como se viu no seminal Viagem à Lua, seu trabalho mais lembrado. Deriva deste, claro, o extraordinário O Eclipse do Sol com a Lua Cheia, sobre o encontro dos astros, talvez a primeira vez em que se sugere o sexo no cinema.

Na tela, as cabeças do Sol e da Lua encontram-se. O segundo esconde-se atrás da primeira, que não oculta seu rosto de desejo – tampouco sua mudança de expressão à medida que toma distância do Sol, com o qual poucas vezes se cruza nesse espaço escuro feito de tecido, nas invasões de Méliès aos contornos da face, investidas às grandes cabeças.

Outra obsessão do mestre, por sinal: O Homem com a Cabeça de Borracha mostra a cabeça crescendo, a do próprio autor, inflada por seu duplo. Quatro Cabeças é Melhor que Uma é outra brincadeira feliz na qual o realizador multiplica seu rosto e o coloca nas cadeiras ao lado. Também não se pode esquecer da multiplicação em O Melômano.

Dos primórdios, fiel ao tablado, o cineasta não precisa mais que si próprio para fazer valer a forma. As novidades pululam nos primeiros dias do cinema. A mágica ganha um atalho poderoso. São vários os filmes em que Méliès está sozinho em cena, como Le Roi du Maquillage, em que as pinturas do artista são levadas à sua face.

Nesse curta-metragem de 1904, ele aproxima-se da câmera – ao contrário da maior parte de seus filmes, nos quais predominam planos médios. Em Méliès, o flerte com o close-up pode ser visto nas cabeças aumentadas. Homem do palco, ele ainda resistia: esse caminho era uma das artimanhas para erigir o truque, não para fazer avançar a linguagem.

O místico e a ciência encontram-se nesse cinema pioneiro. Os donos das lunetas vestem-se como mágicos, observam o espaço de figuras demoníacas, de monstros verdes (na versão colorida à mão), da Lua como rosto coberto de massa e, em Viagem à Lua, com o qual o foguete colidirá. Poucas imagens resumem tão bem a magia da sétima arte, ao mesmo tempo falsa e verdadeira: o espetáculo de matinê e o sonho de atravessar o cosmos.

O pioneiro só podia mesmo ser um ilusionista. A Lua que avança à tela – certamente assustadora a qualquer criança, ou a qualquer adulto de 1902 – serve, sem exageros, como alicerce a uma arte que não cansou de voltar aos efeitos mágicos, ao antropomorfismo sem limites que, décadas a fio, continua a dominá-la.

Foto: O Eclipse do Sol com a Lua Cheia

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