O falso realismo dos felinos digitais

Há de se admirar os fios que saltam da face, cada dobra do nariz, o brilho do globo ocular, do pequeno Simba, protagonista de O Rei Leão, de Jon Favreau. Vê-se um “verdadeiro” filhote de leão nesse retorno da Disney às histórias que, há poucas décadas, encheram seus cofres e cacifaram fãs.

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Em 1994, a animação O Rei Leão trazia a expressão de um leãozinho valente, a seguir o pai justo, o rei, contra um velho leão maldoso com toques efeminados e suas seguidoras, hienas carniceiras e engraçadas. Tinha-se nessa personagem de desenho, livremente distante, em universo à parte mas saboroso, alguma expressão.

Paradoxalmente, a realidade agora atingida impede uma possível expressão do novo leão renascido em digital, com pelugem, músculos, tangível àqueles que o encaram, do nascimento à subida ao trono. O realismo atrapalha: as frases emotivas soam deslocadas das formas vivas e, por consequência, os momentos dramáticos não convencem.

Na cena em que Simba sofre com a morte do pai, por exemplo, a imagem não corresponde à dor que se espera, a do filho que acredita ter matado quem mais ama. Representa também a morte da figura heroica, referência ao pequeno protagonista agora encurralado, culpado pelo fim trágico dado ao dono do trono, pisoteado por uma manada de gnus.

O mesmo ocorre às outras personagens, igualmente palpáveis, que não podem fazer outra coisa senão se conterem nesse aspecto milagroso garantido pelos efeitos digitais. É como se os realizadores, Favreau à frente, dissessem que chegou a hora de dar “existência” ao material até então fictício, o desenho infantil. Ou como se fosse a hora de dar aspecto adulto – do qual não se nega a perfeição – ao que antes servia à criança.

Por trás da ideia que há décadas persegue o cinema, a de criar o humano ou a personagem para refletir o real, colecionam-se tropeços e, na contramão, ao se negar isso, algumas pérolas. É justamente a negação do realismo que dá vida à arte e à ficção, por exemplo, do King Kong de 1933, para muitos o palco de um monstro defeituoso.

Questiona-se com frequência por que as versões mais recentes, digitalizadas, não se aproximam do poder da versão clássica de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack. A resposta é simples: vendeu-se, antes, a besta feita para ser cinema, filha de seu material, à medida que o pavor e o fundo dramático emanavam das figuras humanas, dos atores.

Não há atores em O Rei Leão. Tudo é digital. Diferentes momentos não deixam negar a qualidade e algum impacto, como as corridas dos bichos mata adentro, aproximação a algum documentário sobre animais reais às voltas com a sobrevivência. Os movimentos, por sinal, dão a “realidade” à qual o filme tanto precisa recorrer.

Ao fim do movimento, ou da presença, e à chegada da voz, os bichos não deixem de ser bichos, a voz não garante magia e emoções por completo. Melhor se ficassem calados, ou se retornassem às expressões engraçadas do desenho de 1994.

Em As Aventuras de Pi ninguém duvida do tom irreal. Ang Lee, contudo, trata animais como animais de verdade. Quando o tigre põe-se ao colo da personagem central, a certa altura, ninguém tem dúvidas de que os seres em cena estão unidos, de que podem ser o mesmo, talvez, e de que não deixam de ser homens e animais em relação curiosa.

O novo O Rei Leão é um exercício de beleza vazia, para impressionar os olhos. Recorre ao roteiro da primeira versão, uma jornada de crescimento e identidade, de reis transformados em estrelas, de macacos sábios e pássaros irritantes. A demonstração de amor, ao menos, tem algo verdadeiro: ao encostarem as cabeças, os felinos revelam-se animais.

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