Boi Neon, de Gabriel Mascaro

O mesmo rapaz que prepara o rabo dos bois, rente aos corredores nos quais os animais correm presos, prepara roupas femininas em suas experimentações como alfaiate. Vive na estrada, em ambientes frágeis, à madeira, em misturas curiosas neste Boi Neon, de Gabriel Mascaro.

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Ali, os conhecidos parecem desconhecidos: a forma como trata os outros companheiros de viagem sempre faz a situação parecer passageira ao protagonista, o Iremar de Juliano Cazarré. Há sempre brutalidade, indiferença, crueza que come pelas bordas. Tentar compreendê-lo é um exercício pouco estimulante.

O rapaz trabalha nas vaquejadas, entre o som dos alto-falantes, da música eletrônica que serve ao espetáculo, e os animais que são lançados à arena para serem caçados e derrubados na areia como parte do jogo. O futurismo e o sertanejo ganham espaço. Mistura curiosa, estranha, em que nem sempre é simples separar um do outro.

Os aspectos que anunciam o futuro, o “moderno”, emitem algo degradante, perdido, fornecem o pior desse meio árido no qual seus seres buscam novidades, seduzidos pelo neon dos shows, pela moda das revistas, toda uma glamourização distante.

Não estranha que o mundo da caça ao boi, da arena de jogos brutos, divida espaço com as grandes empresas, fábricas de estrutura metálica. A certa altura, Mascaro desiste da linearidade de uma história de choques culturais. Suas personagens já estão presas. Torna-se um filme de sentidos, sexo, afirmação da existência.

O fim está dado antes do término – e, como se vê, não difere tanto do início. As personagens seguem imóveis. Uma das últimas cenas – o sexo de Iremar com uma mulher grávida sobre a máquina – faz pensar nessa condição: a linha de produção contrasta a busca das personagens: o prazer sexual.

À ausência de caminho resta a prisão: nesse meio, homens e bois estão presos a instintos básicos, a cercas de madeira, ao corredores que, não tem jeito, levam sempre a um espetáculo estranho, não raro indigesto. Ainda que Iremar busque sua identidade pelo corte do tecido, pelo trabalho como alfaiate, não escapa à clausura.

Boi Neon reproduz a dialética de um país estranho, fruto do moderno enganoso e do arcaico que resiste. Nele, o homem não perde as características do macho ao aderir à costura; a motorista do grupo, interpretada por Maeve Jinkings, tampouco perde seus traços femininos ao pilotar o caminhão e assumir tarefas masculinas.

Para Mascaro, a inversão de papéis é natural. Nesse estado de barreiras constantes, a inversão chega a ser um respiro, estranha sensação de felicidade em um filme que agarra pela dilatação do tempo, rumo ao mal-estar ou à fixação da beleza.

(Idem, Gabriel Mascaro, 2015)

Nota: ★★★★☆

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