Os Frutos da Paixão, de Shûji Terayama

A moça de pouca carne exposta, seios perfeitamente arredondados, aceita satisfazer o desejo do amante: torna-se prostituta em um bordel chinês para que o outro, sob o semblante malvado de Klaus Kinski, continue a observá-la. Dessa forma tenta provar seu amor, ao passo que destoa dos ambientes escuros, sujos, não menos falsos.

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A moça é O (Isabelle Illiers), desvendada nos primeiros instantes de Os Frutos da Paixão, de Shûji Terayama, a partir do livro de Pauline Réage. Das imagens de uma China verdadeira, em fotos, passa-se à outra, reconstruída, de sonhos ou delírios, que deverá remontar as lembranças da submissa na primeira metade do século passado.

Ao chegar ao bordel, é levada ao quarto que chama de “prisão”. Como outros ambientes, expõe na parede a pintura de uma mulher encurvada. Outras pinturas surgirão em outros ambientes. A história que corre por esse espaço – dessa China recriada, ou rememorada – transmite pela arte as dores e mazelas de seu tempo.

Pois o filme de Terayama não pode ser outra coisa senão falso, às raias do onirismo, até se retornar, ao fim, a certo pingo de realidade quando a moça é libertada em frente ao oceano. É, sem surpresas, o momento em que acorda, em que uma voz forte, masculina, sobre ela, ainda deixa a escolha à personagem: se quiser, a mesma pode ficar.

Nessa história de submissão, as personagens não demoram para explicar o que está em jogo: Kinski, demônio natural, famoso por papéis em obras de Werner Herzog, contrapõe a angelical Illiers. Ele não quer – ou simplesmente não pode – violá-la. Ao homem estranho, que leva o jogo à vida e talvez não se importe com a morte, o que basta é o olhar, a distância, o teste à moça que, desde pequena, criança, foi aprisionada a um quadrado.

Ficar é o enigma, não o fugir. Os clientes não querem dela mais que a forma do objeto, fetiche para mergulhar momentaneamente. Esse não é o espaço dos sentimentos nobres. O que explica a diferença em relação ao menino que trabalha no restaurante do pai, ao lado do bordel, e que se encontra apaixonado por O após vê-la na janela.

Amor idealizado que, outra vez, contrapõe as intenções da personagem de Kinski: o menino confronta-o ao querer da moça o que outros não querem. O sexo entre jovens amantes, aos olhos do demônio louro, tem algo apaixonante, mesmo inocente, natural, nada do que esperava para o ambiente, e para sua protegida.

Daí vem a tragédia final, resolução que não é lá a esperada, e nem podia. Não se tem aqui um filme de conflitos de amor ou a velha trama desgastada do jovem inocente que tenta salvar a moça corrompida das garras do velho abusador. Terayama está interessado em pintar uma prisão de desejos, de figuras estranhas, explorar o conflito que pode surgir quando um indesejado – o jovem apaixonado, neste caso – cruza essa linha.

A busca pelo prazer e os fetiches passam sempre pelo olho. Os funcionários do bordel fazem filmes e os clientes tornam-se atores, lado a lado com meninas que não podem negá-los – sob o risco de serem severamente penalizadas. A cena é montada. O prazer está na recriação, mais que na realidade: todo esse filme curioso será banhado a cores fortes, às vezes divididas no quadro, dando a impressão da velha pintura esquecida.

Prazer e tortura encontram-se, como indica a frase de abertura, de Baudelaire: “Sob o chicote do prazer, este cruel torturador”. A menina aceita as torturas, a prisão, o sexo com outros, enquanto o protetor – cuja foto é pregada ao lado da cama dela – assiste empolgado à prova de amor de seu quarto verde, por vãos abertos na parede, não tão distante da política e da violência que ganham espaço do lado de fora, e que podem destruí-lo.

(Les fruits de la passion, Shûji Terayama, 1981)

Nota: ★★★★☆

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