Em Chamas, de Lee Chang-dong

O rapaz não raro assume o olhar perdido, sem se prender a nada, sem se conectar às pessoas ao lado. Mudo com alguma frequência, ou a falar o necessário, corre para chegar ao mesmo ponto. Ama uma menina que, certo dia, volta a cruzar seu caminho, ao acaso, pela rua; amiga de infância, ela cresceu, tornou-se bela demais.

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O que importa em Em Chamas é a decantação do tempo. Ao protagonista, Lee (Yoo Ah-In), sobram instantes aos quais, para viver, o rapaz agarra-se. Como se tudo se perdesse facilmente, como se, a despeito de algum suspense, de algo intangível, reste sempre o real opaco. Como em outros filmes do sul-coreano Lee Chang-dong, os instantes são espaços de mistério, a invasão total é ilusória.

Do início ao fim, o espectador não terá certezas sobre o ponto de chegada da corrida de Lee. Bom chamar de corrida, neste caso: é do movimento dele, interno ou externo, que trata o belo filme. Lee não tem ninguém. Ou quase chegou a ter. Seu pai acaba de ser preso por agredir uma autoridade; sua mãe foi embora e ele quase não a vê.

Surge a menina, mais nova do que parece, alguém cujos atributos físicos – somados ao poder de sedução – são impensáveis à primeira vista. Ele deixa-se levar por ela, que parece saber tudo, moça experimentada que viajará à África não sem antes se entregar a ele – e não sem lhe deixar uma missão: ir ao seu apartamento alimentar o gato que nunca se vê.

Ela volta de viagem na companhia de um rapaz rico e, a essa altura, ainda não há uma trama de obstáculos, sólida, a agarrar. Logo fica claro que não chegará. Em Chamas é sobre o interior de Lee, personagem estranha, rapaz do mundo rural que coloca os pés na cidade, no espaço moderno e impessoal, sem estar completamente do outro lado.

Drama sobre alguém sem lugar no mundo. Alinhado, por isso, aos trabalhos anteriores do diretor sul-coreano, com as transformações de sua nação, a abertura à modernidade, a perda de antigos valores. Sobre o fim da poesia, ou sobre a tentativa de mantê-la apesar dos obstáculos: Lee é um escritor que não consegue escrever.

Quem retorna à vida de Lee é Hae-mi (Jeon Jong-seo), de quem não tinha muitas lembranças. Surge como nova, fala sobre tudo, mostra-se sofisticada. Enquanto têm um ao outro, os jovens vivem da novidade, do passo seguinte, até aparecer o outro, o rapaz rico (Steven Yeun). Voltaram da mesma viagem, é claro que combinam.

A moça passa a circular com o terceiro em seu carro potente, a frequentar e viver com esse homem rico que representa o oposto de Lee – e não apenas no que diz respeito ao dinheiro. O outro mistura-se, vive como se fosse fácil, presente em espaços chiques nos quais todos falam muito e nada, nos quais qualquer motivo é motivo para brindar.

A situação complica-se quando a moça desaparece. Surgem pistas sobre seu paradeiro. Lee desconfia do outro rapaz. O que mais pode desejar alguém jovem, belo e que tem tudo à mão? Certo momento, o outro confessa a Lee que gosta de incendiar estufas. Fala de seu prazer em cometer crimes, algo que lhe traz euforia, transgressão.

A jornada de Lee incute impotência e reflexão: ele entende que matar é um crime, e queimar uma estufa – ainda que abandonada – também pode ser um crime. Se o filme todo é visto pelo seu ponto de vista, é razoável dizer que o que ele encontra – ou acredita ter encontrado – é apenas a sua versão dos fatos, sua realidade.

Por isso, talvez crime algum tenha ocorrido. E talvez os outros não existam senão na mente desse menino introvertido. A menina de sua infância, agora bela e sexualmente livre, deixa-o para ficar com o homem cosmopolita e abastado que ele não pode ser. Em belos planos-sequência e imagens que expandem espaços, Chang-dong gera falsa sensação de leveza e liberdade, a prisão do protagonista ao enigma que criou.

(Beoning, Lee Chang-dong, 2018)

Nota: ★★★★☆

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