Paris is Burning, de Jennie Livingston

O espaço do show é a pista, não o palco. À pista – que deve ser liberada, como grita alguém no início do documentário, pois são muitas as pessoas próximas da atração – lançam-se as drag queens que sonham com a fama, que desfrutam, por alguns minutos, do destaque. Não só elas: artistas, modelos, exibicionistas passam por ali.

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A pista, ao que parece, é democrática. Espaço que se abre à comunidade negra homossexual e transsexual que ocupa a casa de shows. Os frequentadores são ao mesmo tempo os artistas, ao mesmo tempo a plateia. Do palco, o homem que comanda o espetáculo, ao lado dos jurados, soa implacável, irônico, com palavras fortes em Paris is Burning.

O título do grande documentário de Jennie Livingston refere-se a uma das drag queens que passa por essa casa de shows na Nova York do fim dos anos 80, momento em que afloram figuras que criam grupos, tendências, estilos de dança. É onde Paris, a artista, “pega fogo”, nos instantes em que, como outros, decide cruzar a pista.

A situação é ritual, momento único a pessoas que se revelam com facilidade. Sonham, sobretudo, com o sucesso. Boa parte, ou a maioria, não vai longe: a história do sonho que migra à sarjeta, ou ao natural ostracismo, molda-se ao fundo, repousa na face de uma drag mais velha que percorre o documentário todo se maquiando.

Pelas ruas, na Nova York suja dos anos 80, uma geração de sonhos desenha-se paralela às imagens do sucesso, às da Nova York branca que ganha espaço à luz do sol: louras de cabelo coberto por laquê, rapazes engravatados que caminham com charuto à boca (e o fato de o adereço nada combinar com a roupa não desmonta a pose).

Passa-se à noite em sua maior parte. Os homossexuais confessam à câmera seus desejos – ainda que não precisem falar a todo o momento. O que há de melhor em Paris is Burning é a paixão que salta aos olhos, a das drags que explicam o que sentiram ao cruzar a pista da casa de shows, nas apresentações dos chamados “bailes”.

É, para muitas, o espaço que restou. Retrato de uma sociedade do espetáculo, de pessoas que criam seu próprio caminho à inclusão, suas regras, seus bandos, seus movimentos. Há um limite em que a arte e o ridículo encontram-se, e em que essas pessoas não percebem a própria cegueira enquanto correm atrás do sonhado sucesso.

E pouco importa, a Livingston ou a qualquer das retratadas, que o espaço extrapole a pista: elas ou eles, drags e artistas, vivem da mesma forma do lado de fora. Uma chega a trabalhar como modelo e ronda um encontro, em um shopping, com modelos famosos. Espreita-os, enquanto a câmera revela-a sozinha entre todos, entre a multidão.

Em pequenos cômodos vêm à tona algumas tristes histórias de abandono: em geral, pais e mães que descobriram a homossexualidade dos filhos e lhe deram as costas. Seguem então à Nova York que abarca sonhadores, à noite pela qual desfilam, antes de tomarem a pista da casa de shows, e sem pudor ao revelar um lado marginal.

Confessam crimes, inclinações à prostituição. Sonham. O dinheiro não é o mais importante para uma delas. A casa de shows, sob a gritaria dos frequentadores, é, ao menos, um momento para se viver sob certo holofote, para ser alguém destacado de todos – contra o mundo externo, maior, quase sempre cruel, inescapável.

(Idem, Jennie Livingston, 1990)

Nota: ★★★★☆

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