Girl, de Lukas Dhont

A garota não se encontra no espelho. Observa sem ver o reflexo, a ver o que não quer, outro que ainda lhe ocupa. A dor pertence aos olhos e, por extensão, ao corpo. Problemas com si mesma, com o que nega, o que não suporta: o peso das partes masculinas, do que não é apenas detalhe. Em Girl, a protagonista precisa ser mulher inteira.

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Dessa dor com o corpo, ou que a ele é passada, justifica a exposição de todas as partes, nada gratuito: é preciso mostrar os adesivos colocados sobre a genital, o corpo feito de músculos, pele e ossos, cada curva dessa mulher que cansou de esconder as partes do menino que ali habitou. Filme sobre libertação, sem nunca se despregar do físico.

Acordada pelo irmão, ela é chamada como deve e como quer, por Lara, nos primeiros instantes do filme de Lukas Dhont. Em outro momento, o mesmo irmão, uma criança, chama-a pelo nome anterior, o do menino, e a protagonista sofre. Do pai, ganha total apoio e compreensão para sua caminhada em busca da mudança de sexo.

A família e os amigos não chegam a ser um obstáculo. O acerto do filme de Dhont é expor o obstáculo do próprio corpo, ainda um casulo à menina que não aceita sua forma anterior, ou o que dela ainda resta. Precisará lidar com as dores desse corpo, com seu fechamento, o filme inteiro, o que faz o balé casar-se perfeitamente à proposta.

Ainda no início, abre a perna, eleva-a à madeira da porta, explora o mesmo corpo flexível que a aflige: é com ele que deve conquistar sua posição na escola de balé, depois em um possível espetáculo, e, em certa medida, com ele terá de duelar. A cada giro, a cada dificuldade de rodopio, representa-se a batalha – no limite do corpo como arte, no limite do corpo como forma masculina ou, em outros momentos, feminina demais.

Como Lara, Victor Polster tem um sorriso cativante. Penetra o público com jeito inocente, traços de menina rumo às primeiras descobertas. Olha com certo receio ao rapaz do apartamento ao lado, menino que corresponde às trocas de olhar, que lhe expõe o pênis, mais tarde, como fonte de desejo – mas o pênis como objeto masculino. Àquela altura, Lara talvez não queira ver, pois ainda o encontra no próprio corpo.

A diversidade de gênero é abordada como luta. Ser alguém sem ser por completo. Luta representada pela arte do balé: é a história de uma menina que não se sente verdadeira com o próprio corpo e, por consequência, não consegue sustentar seu peso com a ponta dos pés; menina em busca de equilíbrio, a quem a dança ainda não é completa.

Para ganhar seios, Lara começa a tomar hormônios. Algum tempo passa, a forma desejada não vem. Os músculos ainda saltam. Talvez sejam apenas músculos comuns a uma bailarina, alguém que renuncia à comida em excesso enquanto tenta caber em seu universo de dança, de exigências, porém magra demais para a aguardada cirurgia.

O desespero consome-lhe a cada nova cena. Os esparadrapos colocados sobre o pênis, para esconder o órgão, fazem pensar no corpo remendado, algo transformado à força, escondido. Não estranha que o cineasta insista nessa situação e, a ela, retorne mais e mais, à tentativa de esmagar o que sobra, o que logo deverá ser expulso.

A grandeza de Girl deve-se também ao encontro do ator ideal ao papel protagonista. Polster comove com sua interpretação cheia de detalhes, introspecção que tanto explica, sorrisos perdidos, os de uma adolescente qualquer. Sua identidade não tem sentido enquanto o espelho revelar um corpo que, sabe o público, não lhe reflete.

(Idem, Lukas Dhont, 2018)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio

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