Arte perigosa (em dois filmes de Florian Henckel von Donnersmarck)

O Estado tenta controlar a arte e os artistas em dois filmes do alemão Florian Henckel von Donnersmarck. Ambos revisam a história de seu país em períodos diferentes: os últimos dias da Alemanha Oriental em A Vida dos Outros, o nazismo e o sistema comunista que levantou muros para dividir Berlim e o mundo em Nunca Deixe de Lembrar.

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Nos dois casos, a história é rememorada para demonstrar a dificuldade de compreender a arte e, sobretudo, o quanto a intrusão político-partidária é maléfica ao fazer artístico. No primeiro, o protagonista é um agente da Stasi, a polícia perseguidora da Alemanha Oriental; no segundo, um artista casado com a filha de um ex-líder e médico nazista.

O agente começa como vilão, depois passa a herói. Sua transformação é o que o filme tem de melhor: ele não muda por influência da arte, mas por ouvir – e aprender a ouvir, a sentir – a vida dos artistas em um regime perseguidor. Pois ele próprio – servido por grampos, sua tecnologia – será quem persegue, papel ingrato que passa a rejeitar.

O artista de Nunca Deixe de Lembrar cresce à sombra do nazismo, torna-se pintor pelos ensinamentos de um professor e uma escola de arte na Alemanha comunista. Não contente com sua arte (ou a ideologia que tem de engolir todo dia, a cada pincelada), foge para o lado ocidental e, em uma escola que estimula a arte abstrata, tenta encontrar seu traço.

A liberdade dada ao artista não contribui necessariamente ao encontro do traço. Para von Donnersmarck, a arte depende da memória, experiência do viver para além das galerias – o que faz a experiência dos artistas do abstratismo, com corpos em tinta, algo sem qualquer força, crítica do cineasta à suposta ausência de rosto e emoção.

Da memória, o escritor retira seu livro em A Vida dos Outros, o pintor seu traço – seus quadros, sua futura exposição – em Nunca Deixe de Lembrar. Ao mesmo tempo, é o que permite enxergar: o escritor descobre um herói anônimo, seu salvador, enquanto escreve o livro; o pintor, sem querer, une algoz e vítima do nazismo na mesma tela.

Os filmes, voltados à Alemanha do século 20, carregam um misto de medo e curiosidade, beleza perdida em tempos em que a ideologia era levada a sério, em que se viviam riscos constantes, em que ainda era preciso se encontrar às escondidas ou vestir uma personagem para sobreviver. O diretor olha para o passado com desconfiança.

A Vida dos Outros é frio, real, palpável, embalado pelo protagonista imperfeito, pequeno, que cresce à base dos efeitos policialescos, autoritários, de sua profissão. Sem esta, é ninguém, ou quase, como se perceberá no castigo a ele infligido, mandado aos porões da mesma Alemanha Oriental nos últimos anos desse país-prisão.

O artista será sempre perigoso. A arte considerada degenerada não deixará de ser exposta pelos nazistas. Quando criança, o protagonista de Nunca Deixe de Lembrar é levado a uma exposição de “distorções”, quadros considerados proibidos e feitos para “destruir” a imagem do “homem puro” da Alemanha de Adolf Hitler.

Para os nazistas ou comunistas em questão, a arte deveria estar associada apenas ao ideal vigente, panfleto para consumo da massa. Já nos títulos, os filmes de von Donnersmarck revelam diferenças, grandeza para um e pequenez para outro.

A Vida dos Outros mostra a importância do olhar ao pequeno, ao cotidiano, à política das pessoas comuns em que ninguém está acima de qualquer suspeita – nem a mulher amada; Nunca Deixe de Lembrar não chega a esse efeito ao mesmo tempo simples e grandioso, moldado como é por figuras enjoativas, às vezes angelicais e sem vida.

(Das Leben der Anderen, Florian Henckel von Donnersmarck, 2006)
(Werk ohne Autor, Florian Henckel von Donnersmarck, 2018)

Notas:
A Vida dos Outros: ★★★★☆
Nunca Deixe de Lembrar: ★☆☆☆☆

Veja também:
13 Minutos, de Oliver Hirschbiegel

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