A Mula, de Clint Eastwood

Enquanto velhos cidadãos de bem perderam seus negócios, vítimas do mundo virtual e das novidades importadas a preço baixo, parte dos imigrantes – quase sempre os mexicanos – ganhou dinheiro com o tráfico de drogas. É esse o país de A Mula, universo que leva o senhor honesto a se tornar um transportador de drogas.

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O americano tradicional, chegado a caminhonetes e encontros com seus pares em clubes para celebrar os anos da Guerra da Coreia, tem motivos para desejar uma América “grande de novo”. O filme de Clint Eastwood é um alerta pró-Donald Trump, história sobre o perigo dos “diferentes” disfarçada de jornada humana.

Conservador mais no tema que na direção, Eastwood só não é pior porque se segura bem no papel de um senhor honesto em terra de jovens matadores, de donos de cartéis com espingardas douradas, sorridentes e canastrões. São sempre mexicanos ou asiáticos, fáceis de identificar. Para viver o chefe, escala o cubano Andy Garcia.

O diretor e protagonista interpreta Earl Stone, outro dos rascunhos que adora trazer à tela: o homem de temperamento difícil, deslocado mas bondoso, com dificuldade para mostrar o tamanho de seu coração. O conflito de Earl – e em parte da obra recente de Eastwood – está no núcleo familiar, ou no que é possível denominar assim.

Seus heróis, por isso, adotam outros filhos em Menina de Ouro e Gran Torino, tentam provar que estão acima das máquinas e novidades. No universo de Eastwood impera o homem, o macho com raízes no faroeste, insubstituíveis e honestos, como se viu no ótimo Sully: O Herói do Rio Hudson ou no pouco marcante Cowboys do Espaço.

Mas mesmo em Sully ou Gran Torino há uma América a olhar para dentro e, mesmo sem dispensar bandeirinhas e discursos esperados, segue caminhos interessantes. Não estranha que o melhor trabalho de Eastwood em muitos anos seja mesmo Sobre Meninos e Lobos, sobre a transformação de garotos em homens e a degradação das tradições.

Earl não esconde a satisfação com o trabalho sujo. Rentável, o transporte de drogas é realizado diversas vezes. A segunda viagem é feita já em nova caminhonete; a cada fim de trajeto, aumentam as quantias de dinheiro. Em uma América apodrecida, de desvalorização do trabalho interno, nada dá mais lucro que o crime dos imigrantes.

Em algum ponto, Eastwood diz que o serviço precisa ser feito. O mais difícil caberá aos homens fortes, o que leva, outra vez, à ótica do faroeste. No gênero em que o realizador lançou-se e tantas vezes se debruçou, o matador ou o pior dos homens pode carregar integridade, como prova em Os Imperdoáveis, sua obra-prima.

O problema maior não está em Earl, que ganha o perdão ao assumir sua culpa. Em cena, Eastwood dança mais do que rosna, o que parece uma mudança significativa. Com idade avançada, faz o que gosta, seguro, no terreno que conhece bem: a América profunda, bela, a dos restaurantes tradicionais em que mexicanos são identificados pelo olhar alheio.

Ali, entre mesas, comendo o “melhor sanduíche com carne de porco do mundo”, Earl, ou Eastwood, sente-se como todos, diverte-se com a aparência deslocada de seus convidados, bandidos que o seguem pela estrada. Conforta o espectador: seu herói está em casa, ainda que esta esteja um pouco bagunçada em tempos de imigrantes e internet.

Parte da crítica de cinema ama Clint Eastwood, tido como representante final de uma geração que não se preocupava com as pautas da Nova Hollywood, filiada à mise-en-scène febril e violenta de criadores como Don Siegel. Para tal ala da crítica, a política conservadora impressa no filme importa menos, o que não deixa de ser verdade.

A Mula está sintonizado com seu tempo de policiais certinhos, de representantes da velha guarda que ainda se permitem driblar o politicamente correto. Em sequência específica, Earl receberá a visita de duas prostitutas no quarto do hotel. Seu seguidor mexicano, mais jovem, apenas o observa pela janela, em misto de inveja e respeito.

(The Mule, Clint Eastwood, 2018)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
Clint Eastwood: emblema da América
Sully: O Herói do Rio Hudson, de Clint Eastwood

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