Desobediência, de Sebastián Lelio

Em Ronit, a peruca permanece pouco: ela retira o item e leva os verdadeiros cabelos à frente dos ombros. Atrai a atenção. Esconder-se não está em seus planos, ainda que se expor demais, em tais circunstâncias, soe desobediente. Filha de um rabino respeitado que acaba de morrer, ela tem de retornar à comunidade ortodoxa que deixou há anos.

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Ao contrário dela, a antiga companheira revela-se justamente pelo uso da peruca. Escondida, olhos entre fios, uma menininha obediente ao marido ao qual, pelo menos uma vez por semana, serve o sexo mais como obrigação, menos como prazer. Ambas se reencontram e revivem o passado em Desobediência, de Sebastián Lelio.

Nem todos sabem que Ronit, interpretada por Rachel Weisz, é a filha do rabino. É, para a maioria, mulher estranha, invasora, culpada por desviar, em tempos passados, a bela Esti (Rachel McAdams) de seu caminho natural, o qual todas as mulheres, segundo a lógica castradora, devem seguir: ser esposa, ser mãe, servir o homem.

Ronit seguiu outro caminho, em outro local. Fotógrafa, voltou suas lentes às peles que, como revela no início, não passam incólumes à dor – tampouco à religião, como diz um homem fotografado, dono de uma tatuagem de Cristo. Deixar-se marcar pela religião, qualquer uma, leva à dor. É a mensagem do filme, é o que vem em seguida.

Tal marca, em Desobediência, persegue a mulher que precisa voltar para sua antiga casa, para o pai e para a família que não têm mais. A volta é a constatação do que perdeu, para desorientá-la; também a constatação do que deixou, do que ficou mal resolvido.

Curiosamente, Esti parece sofrer menos que Ronit. É assim quando começam a se envolver de novo, com pertencimento, revelação, beijos estranhos, toques que, não demora, desembocam no sexo, na entrega que acompanha a fuga para qualquer quarto de hotel em algum bairro distante, para que se vejam aliviadas.

Livres, ainda que por pouco tempo, dividem tudo, dos toques à saliva, momento em que Esti sente o que não sentia na companhia do marido que, sobre ela, na cama, é incapaz de perceber seu olhar perdido para qualquer ponto do cômodo. Com Ronit, vêm a liberdade, o gozo reencontrado, a intimidade reproduzida em pequeno gesto.

Amor que, até certo ponto, será incompreendido pelo homem cego (Alessandro Nivola), e nunca aceito pela sociedade que cerca. Desobediência, com a frieza de seres e ambientes, neve e um estofo acinzentado por todos os lados, revela a dificuldade para se penetrar, para fazer parte, para deixar ver o que há por trás de uma peruca.

Parte da tradição judaica, o ato de esconder os cabelos tem aqui outra função: serve ao jogo de máscaras que se impõe àquela moça casada por conveniência, alguém que grita calada e, no reencontro com Ronit, não tem mais dúvidas sobre o que fazer. Retirar o apetrecho se torna um ato de liberdade, tal como beijar a outra.

O filme é duro, resiste a se livrar do frio que o permeia. A crítica de Lelio não chega ao escândalo. Os beijos são sempre escondidos. O pequeno olhar diz muito, ou tudo. Toques de mão são reveladores. À exceção da cena de sexo entre mulheres, o filme todo traz personagens retraídas, aos efeitos da dor que ultrapassam os limites da pele.

(Disobedience, Sebastián Lelio, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
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