Ao Rufar dos Tambores, de John Ford

A chegada dos inimigos é traumática. Os índios, distantes, saem da floresta como forças da natureza, desalmados, ora bêbados e sem poder sobre seus corpos. Querem apenas destruir, pôr fogo nas casas, guiados pelos ingleses em menor quantidade. Um desses líderes, interpretado por John Carradine, parece saído de um filme de horror.

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O grito indígena assusta, dá o tom do pesadelo, como se a qualquer momento o paraíso pudesse ser violado em Ao Rufar dos Tambores, de John Ford. A primeira experimentação do mestre com as cores expõe uma nação nascente, com conflitos e gente honesta, à qual duas tempestades trazem algum contraste.

A primeira ocorre ainda no início, na viagem do casal central, de mudança para a nova terra. Recém-casados, eles ainda experimentam as novidades, contra a chuva que surge como alerta para dias difíceis – como foi, também, no filme anterior de Ford, A Mocidade de Lincoln, no qual o futuro presidente caminha ao som das trovoadas.

Para Lana (Claudette Colbert) e Gilbert Martin (Henry Fonda) os novos dias não serão fáceis: apesar da experiência do homem, um militar, à mulher restam confrontos pelos quais não pediu. Pelo outro, aceita-os, assiste à sua casa em chamas, aos amigos mortos, enviada, ao que parece, a um crescimento tardio após sair da casa dos pais.

O olhar às novidades é dela, o que justifica seu protagonismo e o nome de Colbert ao alto dos créditos iniciais. À saída dos homens para um sangrento confronto, a narrativa põe-se ao lado da mulher, das damas que ficam, e sofrem, com a falta de notícias. A volta dos soldados, maltrapilhos, dá-se justamente com outra tempestade.

A sequência é belíssima: para fora da casa, Lana procura por Gilbert. As fileiras passam, ele não aparece; um dos líderes, com a perna machucada, é levado para dentro da casa. Questionados, outros nada sabem. À chuva, Lana continua, persistente, em busca do amado, achado ao pé de uma cerca, sob o efeito dos choques da guerra.

Para dentro da casa, coberto, ele continuará a falar sobre o conflito. A história passa pela tela. Ford obriga a imaginá-la ao calor do local, à constante aparência de que tudo está perto de se quebrar. Outra vez se pensa na natureza, nas tempestades repentinas, nos índios – outra vez desalmados e perigosos, é verdade – que cruzam as portas.

Ao Rufar dos Tambores é um belo filme sobre acontecimentos que ajudam a entender o nascimento de uma nação – não necessariamente aliado a fatos verdadeiros, às figuras como elas foram, mas inclinado ao espírito do americano em defesa de suas terras, no grande forte de madeira em que a religiosidade não impede a carnificina.

Na parte alta da igreja, Ford leva o público à profundidade dessa fé, ao tamanho desse espaço, ao ritual dos que se erguem aos púlpitos para clamar ao Todo Poderoso e igualmente matar. Curioso, por isso, que o inimigo inglês seja encontrado morto no mesmo púlpito, enquanto Ford dá vez ao índio amigo, ao fim, usando o tapa-olho do algoz.

Os nativos absorvem o que há de pior nos invasores. Nem a suavidade cômica de Ford – como na já citada aparição indígena – consegue evitar o impacto desse efeito. Os índios, definidos por seus sinais sonoros, em distância considerável, são corrompidos por um cinema clássico no qual os pastores atiram com culpa, mas não deixam de tomar armas.

O que não inviabiliza o encontro com um grande filme, um dos movimentos de Ford à bandeira, elevada ao pico da catedral. A ela, o olhar atento de todos, a reverência do índio, ponto em que pátria, religião e subjugação assumem o mesmo espaço. Ao casal, resta voltar, entre soldados, e dar início à reconstrução da sonhada casa.

(Drums Along the Mohawk, John Ford, 1939)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
A Mocidade de Lincoln, de John Ford

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