A Mocidade de Lincoln, de John Ford

O homem de fala ponderada é, antes, Henry Fonda. O mesmo tom seria visto depois em As Vinhas da Ira e, mais tarde, em 12 Homens e Uma Sentença: uma voz com apelo à calma, ao pensamento, à justiça, da qual, com o texto correto, encontram-se certezas. Tipo certo, portanto, para o moço Abraham Lincoln de John Ford.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Não que a questão física não se faz notar: Fonda empresta sua altura, sua expressão pacata mas incansável, a fórmula do bom homem. Em um futuro vilão, provaria sua versatilidade, e até causaria estranheza: o homem que mata mulheres e crianças no faroeste Era Uma Vez no Oeste, de Sergio Leone, ainda é Henry Fonda.

Para A Mocidade de Lincoln seria necessária alguma transformação física: os olhos estão mais fundos, a face de aparência empalhada – para não dizer fantasmagórica – confere velhice precoce, o cabelo e o nariz são maiores que o normal. Tudo concentrado sobre um corpo magro e alto, na figura do líder de passos lentos.

É, antes de presidente, antes de mito, o advogado com faro para as causas certas, para os inocentes que precisam de ajuda. Gente dos rincões, de natural bondade, à qual as idas à cidade, para celebrar patriotismo, custam caro. Em uma delas, dois rapazes honestos envolvem-se em uma briga e um homem termina morto. Ambos são acusados de homicídio, crime presenciado pela própria mãe dos visitantes.

Presos, eles contam apenas com Lincoln, ou Abe. O herói percebe a honestidade da qual o espectador não duvida: ao longo da obra, Ford deixa claro quem é quem, os lados do tabuleiro e, sobretudo, a que presta sua aparente história esquemática. Mais que lançar luz aos abusos da construção de personagens, interessa a Ford só uma delas.

Mais que mirar nos jovens, ou na turba enlouquecida, ou nos belos moços e moças que observam o protagonista com curiosidade, o cineasta recorre ao herói em formação, ao político de olhos fundos, de discurso singelo em primeira aparição. Um filme sobre Lincoln a partir de seu passado, sobre o mito desde cedo desavergonhado.

Para alguém como ele, ficam certezas, igualmente o silêncio, a ponderação; é uma personagem que pode inclusive cravar piadas para chamar a atenção da plateia – e do júri, além do farrista juiz – enquanto desempenha o papel de advogado de defesa. Alguém que não ri da própria piada, que prefere a graça simples, a do homem do campo.

Desse meio, como se vê no primeiro discurso, sai Lincoln: um rapaz que fala o que pensa e fala com sentimentos, real em sua calmaria, em seu desfilar de terno e cartola sobre o lombo do burro. A ele não cabe outra posição senão a do homem consciente da justiça, como se lhe fosse intrínseca – como será ao Lincoln de Steven Spielberg.

Ao Lincoln de Ford – como ao de Spielberg – não cabem a masculinidade, a explosão de fúria, qualquer ato que extrapole o discurso da ordem: a esses criadores classicistas, o homem em questão já era pedra, estátua, pintura, contra sua nação conflituosa e marcada, em maioria, por justiceiros de plantão, a certa altura dispostos a invadir uma delegacia, retirar os jovens encarcerados e enforcá-los em praça pública.

O jovem Lincoln de Ford tem suas respostas estampadas na pele, no cinema clássico e ordenado que o diretor de raízes irlandesas sabia guiar como poucos. Um mito de certezas que, ao fim, caminha rumo à tempestade, ao seu futuro como líder máximo do país.

Herói fora de moda, talvez. Alguém que só pode terminar como estátua, o que ratifica sua verdadeira estatura. O compromisso com a realidade, em Ford, diz respeito aqui à essência do espírito do ser honesto. Em certo sentido, sua personagem é espírito. Nada é real. O diretor acredita em Lincoln, concede-lhe face humana e não menos misteriosa.

(Young Mr. Lincoln, John Ford, 1939)

Nota: ★★★★★⤴

Veja também:
Steven Spielberg: o fracasso do mundo adulto

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s