Três Homens Maus, de John Ford

Mocinho e bandido são logo denunciados: o primeiro custa a envelhecer, mantém o jeito menino; o segundo envelheceu à força, usa maquiagem pesada. O primeiro evidencia sua bondade sem esforço, o segundo expõe um jeito vampiresco, saído de um filme expressionista, de monstros com olhos fundos, lábios finos, desalmados.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Os opostos são necessários e, em certa medida, evitados durante Três Homens Maus, do mestre John Ford, ainda no período silencioso. Os homens do título correm ao lado e aos poucos ganham destaque, bandidos que se guiam pela camaradagem, entre bebedeiras e gestos de bondade. Não demora para se converterem em heróis.

Ainda dá para inserir uma mulher, ou duas. Para completar, a corrida ao ouro, o estouro dos cavalos, bois e diligências à luz da permissão presidencial para que a terra seja explorada. A trama envolve a morte do pai da garota, a proteção dada à mesma pelos “três homens maus”, o amor na presença do herói, o perigo pela aproximação do vilão.

História conhecida, é verdade, à qual, outra vez, Ford leva um fundo histórico. Os imigrantes irlandeses são vistos durante a introdução. Tem início a ocupação de terras até então dominadas por índios. A história americana é diminuída, volta-se à carroça, ao cavaleiro que passa por ela ao acaso, aos pistoleiros menos malvados do que parecem.

A moça ocupa o centro da história. É Lee Carleton (Olive Borden), em viagem na companhia do pai e de alguns cavalos de corrida. Antes de ser atacada por criminosos e salva pelo trio do título, a donzela conhece Dan (George O’Brien), candidato a herói, ao qual, pela pequena boca, revela seus dentes grandes, sorriso marcante e natural.

Ao contrário da imagem comum da dama do Oeste, a da mulher recatada que grita ao primeiro som de ataque e repudia o avanço de homens viris, Lee mostra-se aberta, livre, pisca para o pretendente e dele se aproxima sem medo, enquanto o pai, ainda vivo, esforça-se para consertar a roda da grande carroça.

Os três pistoleiros aos poucos ganham características heroicas, têm figurinos e estilos próprios: no Touro Stanley (Tom Santschi), alguém massacrado pelo tempo, sem a irmã, desiludido; em Mike Costigan (J. Farrell MacDonald), o irlandês pronto para tudo, inclusive para a morte certa; em Spade Allen (Frank Campeau), o jogador.

A corrida ao progresso traz confusão. Ford não se preocupa com a bagunça. Na cidade que se insinua, com seu xerife criminoso (Lou Tellegen), mulheres apertam-se entre a madeira da carruagem para acenar aos homens que passam, em dias de suposta facilidade: toma-se a terra (inclusive com permissão) como se toma uma companheira.

A composição é magistral. Ford fica entre a aventura de personagens conhecidas, calculada, com encerramento certinho, e o retrato verdadeiro de uma nação nascida da corrida e da disputa, da violência. Em cena marcante, um bebê é esquecido pelo caminho, à terra batida, na direção dos exploradores, salvo pouco antes de ser atropelado.

A aglomeração carrega beleza e medo. Em algum ponto a turba sai do controle, é real, com um casal de velhos que lamenta a parada, que não pode continuar a corrida e chora em momento de êxtase – enquanto Ford encontra seu próprio tempo para focá-lo, pessoas verdadeiras, simples, para um país moldado por sinais conhecidos.

(3 Bad Men, John Ford, 1926)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Caravana de Bravos, de John Ford

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s