O Animal Cordial, de Gabriela Amaral Almeida

A relação entre comerciante e cliente impõe regras de interpretação – sobretudo da parte do primeiro. O dono do restaurante, este que vive para interpretar, e que interpreta sozinho enquanto se olha no espelho, vê-se tarde da noite à frente de clientes que sempre chegam perto do horário de fechar. Os funcionários estão cansados.

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Cordial às aparências, cabelo lambido em gel jogado para trás, à forma de um mafioso, Inácio (Murilo Benício) tem a violência represada, vendo a oportunidade de colocá-la para fora, em O Animal Cordial, quando seu estabelecimento é assaltado. Em noite que não quer acabar, diferentes pessoas encontram-se no mesmo restaurante.

Necessário se ater ao espaço, ambiente de rituais, não o da comilança, do animal revelado, mas o da refeição – por isso o dos bons modos. Pequeno restaurante chique, aconchegante, com música ambiente, ao som de taças e talheres, sem vozes altas e estridência.

A cineasta Gabriela Amaral Almeida é também autora do roteiro. Nesse filme sobre selvagens revelados, a impressão é que sempre – e apenas – resta a carne. Inácio, desagradável protagonista, rascunho de certa classe alta que decidiu pegar em armas, desconfiada de tudo o que está aí, a começar pelo Estado, consegue domar os bandidos.

Chamar a polícia não está em seus planos. Com a ajuda da funcionária de confiança, Sara (Luciana Paes), ele prende não apenas os criminosos, mas também seu cozinheiro e os clientes. Enquanto os demais desejam tomar a atitude esperada para uma situação como essa, Inácio prefere novas regras e as coloca em prática.

Sua escolha – olho por olho, dente por dente – quebra as regras da civilização. Por trás do homem supostamente polido esconde-se a barbárie, justamente no espaço dos bons modos, dos pratos moldados à arte – ainda que, ao fundo, seja necessário esconder a carne crua, o coelho escalpelado, servido a um daqueles clientes desagradáveis.

Vê-se o ódio, correm as diferenças de classe. Sara não esconde a raiva da cliente dondoca, a burguesa a quem é servido um dos vinhos caros do cardápio. Não metade, mas todo, como pede o companheiro. A mesma cliente será abusada pelos bandidos, dispostos a “tirar uma casquinha”. Não basta o dinheiro nessa noite violenta.

Em O Animal Cordial, não se trata de matar ou fazer justiça. Está em jogo o banquete sujo que, às portas fechadas do espaço antes civilizado, agora pode ser celebrado sem pudor, sem nojo. Seus protagonistas podem se regozijar em sangue. Fome, sexo, desejo de matar aquele que ousa seguir os mandamentos – tudo se conjuga.

Patrão e empregada não escapam às suas posições até o fim. Ele manda, ela acata. À frente, a mesma precisa se certificar que, dele, o outro, aquele que antes se manteve em outro patamar, só sobra a carne. Em forte cena de sexo, ela emite sons estranhos, animais, difíceis de definir, orgasmo que diz muito sobre seus desejos ocultos.

Ele, suposto macho, persegue outro funcionário, o cozinheiro homossexual Djair (Irandhir Santos), acusado de cumplicidade com os criminosos. O cozinheiro age como se espera, tenta iluminar os outros, mostrar a opção errada, sempre em vão: desnuda-se à tela quando tem o cabelo cortado, sinal da liberdade sexual que o patrão não pode ter.

Algumas situações beiram o absurdo. Esse filme claustrofóbico assume-se falso, explode em exageros, não sem deixar uma dúvida: não seria possível, apesar das inclinações à civilidade, chegar a tal ponto? O banquete exposto às salas fechadas diz muito sobre certa necessidade de matar comum aos tempos atuais.

(Idem, Gabriela Amaral Almeida, 2017)

Nota: ★★★★☆

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